‘Perdemos a dignidade’, relatam moradores que sofrem com apagão no Amapá - Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região
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Em 20/11/2020

‘Perdemos a dignidade’, relatam moradores que sofrem com apagão no Amapá

“Joca Boboca, nariz de pipoca, perna torta, não toma coca, dorme na maloca, na canela muriçoca”. O tom lúdico com que Josias Monteiro da Silva, o Joca Boboca, se dirige às crianças da Baixada Pará, uma das maiores periferias de Macapá, é intencional. “É uma forma de tentar devolver a cada uma delas um pouco de infância”.


A atuação do contador de histórias na comunidade não nasce agora, mas se torna ainda mais fundamental em meio à crise energética do Amapá, que chega ao 18º dia nesta sexta-feira 20. “Aqui nunca fomos respeitados, mas agora perdemos a dignidade. Passar fome, sabe?”.

 

 

O apagão, conta o morador, impactou a atividade comercial dentro da comunidade e tornou ainda mais vulnerável a situação de 1.500 famílias da Baixada Pará e entorno. “O vizinho que vendia sacolé deixou de vender, o que vendia churrasquinho também. Temos histórias de pessoas que receberam o auxílio emergencial, compraram carne e perderam tudo. Chegaram a doar pra não estragar”, relata.

Desde o início do apagão, Joca tem se dedicado a arrecadar e entregar doações nas casas de palafita que se aglomeram na região de ressaca, frequentemente inundada pelas cheias do Rio Amazonas e seus afluentes.

 

“Aqui nunca fomos respeitados, mas agora estamos falando de perda de dignidade. Passar fome, sabe?”

 

Embora seja uma referência para os moradores, ele faz questão de frisar que não trabalha sozinho. “A gente se ajuda, é uma grande ação comunitária. Estamos recebendo doações de alimentos, água, fralda. Todo dinheiro que entra a gente corre pra tentar abastecer as pessoas. Aqui é pobre ajudando pobre”, diz, reiterando a falta de ações do governo do estado, liderado por Waldez Góes (PDT), e também da prefeitura, ocupada por Clécio Luis (sem partido).

O morador conta que, embora o estado tenha anunciado um sistema de racionamento de energia, o efeito não é sentido na periferia. O anúncio do racionamento foi feito no dia 8 de novembro, com alternância do serviço a cada seis horas; no dia 12, no entanto, a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) anunciou mudanças no cronograma de atendimento aos municípios, com fornecimento de energia em turnos de 3 em 3 horas ou de 4 em 4 horas.

“A gente nem sentiu voltar nada, esse rodízio aí se perdeu, não tem uma ordem, não dá pra se programar pra nada”.

 

“É humilhação, não merecemos isso!”

Bruna Silva Rocha, moradora de Macapá, usou as redes sociais, na quarta-feira 18, para registrar a sua indignação como cidadã e mãe. “Em mais um completo apagão, minha filha chorando de calor, a peguei e levei pra sala, fiz do sofá uma cama e acampamos lá, fiquei abanando até ela dormir. Quando ela dormiu, eu comecei a chorar”, escreveu.

 

 

As altas temperaturas comuns na região somada à falta de energia durante a madrugada que, segundo ela, é cortada por volta de uma da manhã e só retorna por volta das 4h, a preocupa, sobretudo, pela saúde da filha de 9 anos.

“Ela é asmática, e quando entra em crise preciso recorrer a aparelho de inalação. Como faço sem energia?” questiona.

Bruna conta à reportagem que quando o estado sofreu o primeiro apagão, no dia 3 de novembro, tinha acabado de fazer a compra do mês para abastecer sua família, um gasto de 700 reais. Perdeu tudo, depois de dois dias completos no escuro.

“Minha perda começou aí. Aí imagina ainda ter de arranjar dinheiro reserva para comprar água, sendo que os galões por aqui passaram de 6 para 30 reais. A gente viu cenas similares a ataques zumbis nos mercados pelo medo das pessoas ficarem sem comida”, conta.

“Também não tivemos qualquer esclarecimento esta semana, quando fomos surpreendidos pelo segundo apagão”, acrescenta. No dia 17 de novembro, o Amapá sofreu novo blecaute geral por volta das 20h30.

No 18º dia de problemas energéticos no estado, a família ainda não consegue restabelecer uma rotina. “O horário do racionamento não está sendo cumprido, temos falta de luz cerca de quatro vezes em um dia. Não consigo estocar nada, temos apostado em coisas secas para comer que duram um pouco mais, como arroz, farofa, uma salada. É uma falta de respeito com todo mundo”.

 

“O pior ainda está por vir”

Um médico que atua na cidade de Macapá, com atendimentos nos hospitais de clínicas e emergência da cidade, e também em uma unidade básica de saúde, não tem um bom diagnóstico sobre os efeitos prolongados do apagão na saúde das pessoas.

“A minha agenda de atendimentos na UBS, que sempre foi cheia, agora não está. Isso significa que as pessoas estão deixando de adoecer? Definitivamente não, só estão com outras prioridades. Certamente teremos um quadro de pacientes com doenças crônicas descompensadas por conta desse cenário completamente adverso”, conta o profissional que preferiu não se identificar.

O especialista conta que, ainda que o estado tenha anunciado um racionamento, os períodos sem luz não permitem que a cidade tenha um funcionamento ordenado, o que também impede que as pessoas procurem atendimento médico.

 

“Também já tenho relatos de colegas que atuam com atenção de saúde primária sobre aumento de casos de diarreia em crianças e adultos, já que a população não tem tido acesso à agua de qualidade”, acrescenta.

 

A falta de água potável é ainda mais preocupante em um cenário de pandemia. A higienização das mãos corretamente com sabão e água, além do uso de álcool gel 70%, é uma das recomendações feitas para conter a proliferação do Covid-19. O Amapá, segundo levantamento feito por um consórcio de veículos de imprensa na quinta-feira 19, está entre os treze estados que apresentaram alta na média móvel de mortes. Até o momento, são 52.500 casos confirmados e 748 mortes.

 

Quem é quem na questão energética do Amapá

O Amapá produz energia a partir de 4 hidrelétricas instaladas em rios do estado. O total produzido de cerca de mil megawatts é redistribuído por meio de leilões em que as distribuidoras fazem a aquisição do que é gerado. Segundo o governo do estado, o Amapá precisa de 250 megawatts.

Hoje, os mais de 861 mil moradores do estado dependem da eletricidade produzida na hidrelétrica de Tucuruí (PA). De lá, a energia é levada por linhas de transmissão até o Amapá e repassada aos clientes. Quem cuida da distribuição da energia das subestações às residências é a Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA).

O gerenciamento das linhas de transmissão no estado é feito de maneira mista: 85,04% é concessão da empresa Gemini Energy; 14,96% são da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), autarquia do governo federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).

Fonte: Carta Capital


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