“É pura loucura”, diz Caetano Veloso sobre Bolsonaro - Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região
  • »
Home » Notícias » “É pura loucura”, diz Caetano Veloso sobre Bolsonaro
Em 30/07/2020

“É pura loucura”, diz Caetano Veloso sobre Bolsonaro

O músico, 77, exilado em Londres sob a ditadura militar no Brasil, afirma temer que “o bando ultrarreacionário do presidente” não deixe o poder facilmente.

Foto: Aline Fonseca

Meio século se passou desde que agentes da ditadura brasileira apareceram à porta da lenda musical Caetano Veloso e anunciaram: “É melhor você trazer a escova de dentes”. Depois de seis meses de detenção e confinamento ele se viu forçado a partir para o exílio. Acabou indo para Londres e passou dois anos e meio morando em Chelsea, West Kesington e Golders Green, onde, na sacristia de uma igreja local, ensaiou o que segue sendo seu mais celebrado disco, Transa. “Eu tinha estado em Londres apenas uma vez antes disso e não havia gostado. Achei a cidade arredia, distante”, Veloso recorda, durante uma rara entrevista de três horas para o jornal The Guardian. “Me senti muito deprimido com toda aquela situação”.


Cinquenta anos depois, o compositor, agora com 77 anos de idade, está novamente preocupado com a intolerância política que assola seu país – embora desta vez ele disponha de um assento na primeira fila para a turbulência, desde sua residência à beira-mar no Rio. De fato, o Brasil, que emergiu de duas décadas de ditadura na metade dos anos 80, é hoje governado por Jair Bolsonaro, um ex-paraquedista eleito democraticamente mas abertamente antidemocrático que encheu sua administração de militares e reverencia os generais que baniram artistas e intelectuais, como Veloso, do solo brasileiro. Em meses recentes, apoiadores fanáticos de Bolsonaro foram às ruas com cartazes exigindo o fechamento do Congresso e a volta do AI-5 (isto é, um decreto da era da ditadura que, entre outras coisas, tornou possível ao governo de então o exílio de Veloso), com Bolsonaro em pessoa presente em algumas dessas manifestações. “Um completo pesadelo. É pura loucura”, disse o músico sobre os fanáticos de direita exigindo o retorno da ditadura, com Bolsonaro no leme. “Ter um governo militar é horrível, e Bolsonaro é todo confuso, superincompetente. Seu governo não fez absolutamente nada”, Veloso observa. “O que o poder executivo brasileiro fez no desde que ele se tornou presidente? Nada! Não existe governo nenhum, apenas um monte de loucuras!”.


Duas lendas da música brasileira: Caetano Veloso, à direita, e Gilberto Gil em Trafalgar Square durante o exílio de ambos em Londres. l Foto: Arquivo do Caetano)

O banimento de Veloso do país teve início em dezembro de 1968, quando ele tinha 26 anos de idade e sua carreira estava em ascensão. E o motivo foi algo surpreendentemente atual: fake news. Na sequência de um espetáculo no Rio com os roqueiros psicodélicos Os Mutantes, um locutor de rádio sensacionalista de direita acusou falsamente Veloso e seu parceiro Gilberto Gil de profanar a bandeira brasileira e usar palavrões na letra do hino nacional – atos inaceitáveis naquela que era a fase mais repressiva da ditadura. Ato contínuo, Caetano e Gil foram presos por dois meses, quando estiveram um breve período no regimento de paraquedistas, na zona oeste do Rio, onde o futuro presidente Bolsonaro ia servir apenas poucos anos mais tarde. Depois de mais quatro meses, eles se viram forçados a tomar um avião que os conduziu ao exílio. Fixaram-se então em Redesdale Street, Chelsea. “Levei um tempo pra começar a gostar de Londres”, diz Veloso, lembrando-se de seu novo lar de então. Mas sua melancolia pôde arrefecer-se um pouco com a oportunidade de ver um “dionisíaco” Mick Jagger pavonear-se no palco na Chalk Farm Roundhouse, assim como de assistir a John Lennon, Led Zeppelin e Herbie Hancock de perto. “Era quase como se eu estivesse noutro planeta, numa tribo diferente, numa cultura e modo de ser diferentes”, ele lembra.

Fonte: Portal Vermelho


Desenvolvido por Porttal Webdesign

Topo