Greve dos entregadores revelou as mudanças no mundo do trabalho - Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região
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Em 23/07/2020

Greve dos entregadores revelou as mudanças no mundo do trabalho

Em entrevista a João Vitor Santos, do Instituto Humanas Unisinos, a especialista e socióloga Ana Cláudia Moreira Cardoso trata do uberismo e diz que a paralisação em julho trouxe à luz uma lógica que vinha sendo imprimida no mercado de trabalho, acelerada pela pandemia

Ana Cláudia Moreira Cardoso – Arquivo pessoal

IHU On-Line – Qual a sua análise em relação à paralisação dos trabalhadores em empresas-plataforma de entregas ocorrida no Brasil?

Ana Claudia Moreira Cardoso – O capital se reinventa a todo momento: novas formas de organizar e gerir o trabalho, novas tecnologias, novos discursos, novos mercados. Os trabalhadores, por sua vez, também reinventam suas lutas a partir de novas reivindicações, novos discursos e inovadoras formas de organização. E foi o que vimos nesta paralisação. Se num primeiro momento poderia se pensar que a própria forma de organização laboral seria um impeditivo para a organização desses trabalhadores – com a ausência de um local de trabalho fixo onde os trabalhadores se encontrem todos os dias e assim possam falar sobre a vivência comum do trabalho –, vimos que não foi o caso.

A vivência de humilhações e de um trabalho intenso, precário e incerto, que nada tem a ver com a liberdade e o ganho fácil propalados pelas empresas-plataforma, têm levado esses trabalhadores a, progressivamente, se mobilizarem (Abdelnour e Bernard, 2019). De acordo com Alessandro Sorriso, liderança sindical no Distrito Federal, “a solidariedade foi estrutural na organização coletiva e nacional do movimento, mas o sofrimento comum foi sua força motriz”.

Já em 2016 vimos movimentos em Londres, na Bélgica, na Espanha, na França e na Alemanha. Em novembro do ano seguinte, uma mobilização foi realizada em diversos países ao mesmo tempo. O mesmo ocorreu no ano seguinte e segue até o momento atual. Em várias dessas greves, os entregadores receberam apoio do movimento sindical, de movimentos independentes e de membros de partidos políticos. Desde o início deste ano, presenciamos diversos movimentos nos países da América Central e Latina contra ausências de protocolos de proteção, redução de taxas e do bônus.

Horizontalidade

No que se refere ao movimento no Brasil ocorrido no dia 01/07, e como já foi dito por Sidnei Machado, este foi pensado e organizado de forma horizontal, a partir de conversas nos encontros nas ruas, nas esperas das encomendas, nas manifestações que antecederam a greve, nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp.

Entretanto, cabe um parêntese e algumas indagações. Esta paralisação seria menos relevante se os entregadores tivessem associações, sindicatos ou federação? Se estas instituições, juntamente com os trabalhadores, tivessem convocado o movimento? Ou, ainda, como vimos em outros países, se ela tivesse sido pensada e organizada juntamente com entidades representativas de outros trabalhadores, de associações do movimento social ou mesmo de partidos políticos? Será que no momento em que esses trabalhadores decidirem pela necessidade de terem representantes (o que já aconteceu no dia 08 de julho para a conversa com Rodrigo Maia) será dito que o movimento não é mais horizontal e que ele é menos relevante?

São indagações que me fazem lembrar, por exemplo, dos movimentos de 2013 e o que veio a seguir. Mas, também, me remetem ao discurso neoliberal a respeito de os indivíduos (trabalhadores) terem força suficiente para se defenderem diante do mercado de trabalho e das corporações empresariais sem precisarem constituir instituições.

Greve?

Questões que, de alguma forma, reaparecem nas falas dos trabalhadores. Em um dos grupos de WhatsApp de entregadores que participo, criado para ser um espaço de discussão sobre o movimento, uma das primeiras questões foi em torno do nome a ser dado ao evento. Inicialmente o cartaz apresentado continha o título de “Greve” e, num segundo momento, após alguns identificarem que “Greve” se referia à forma como trabalhadores tradicionais, representados por sindicatos, se organizavam, decidiram mudar o nome para paralisação.

Me parece que essa mesma lógica está presente quando muitos falam que não querem ter a CLT, mas apenas direitos; que não querem fazer política, mas apenas defender seus direitos; e que não querem a presença de representantes de partidos políticos em seu movimento.

Fonte: Portal Vermelho


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