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Em 02/12/2019

Atraso motiva o fascínio bolsonarista pela monarquia

Atraso motiva o fascínio bolsonarista pela monarquia

O “Príncipe” autoproclamado (títulos nobiliárquicos foram extintos há 130 anos) descomemorou a República. O verbo não está no Aurélio, mas a conduta dos governantes tampouco consta de manuais de ciência política ou de boas maneiras. O deputado sangue-azul desejou que o 15 de Novembro venha “pesar na consciência nacional”. E o ministro da Educação lamentou a “infâmia” de derrubar “um patriota, honesto, iluminado, considerado um dos melhores gestores e governantes da história”.

Por Angela Alonso

Com essas falas, os governistas, se os tivessem, teriam mandado seus escrúpulos historiográficos às favas. Quem ainda os tem deve perguntar para qual consciência nacional Pedro 2º é modelo de estadista.

Sua imagem heroica é construção de áulicos que, no começo da República, fundaram o Partido Monarquista. Um dos redatores de seu manifesto logo produziu livro de reabilitação do Império. Foi Joaquim Nabuco quem fez esse serviço inaugural de edulcoramento das lideranças do Segundo Reinado.

O Estadista do Império é Nabuco de Araújo, mas quem sai engrandecido é Pedro 2º. De face, biografia do pai, no fundo, elogio dos políticos do regime caído. Visão longe de consensual mesmo durante o Império.

Na primeira década de Reinado, políticos experimentados deram rumo para o imperador adolescente. Adiante, de moto próprio, pôs o país em maus lençóis no rompimento de relações diplomáticas com a potência do tempo, a Inglaterra, e na teimosia em seguir a guerra ganha contra o Paraguai apenas para matar o chefe inimigo. Ausentou-se do Brasil em momentos críticos de deliberação sobre a escravidão, 1871 e 1888.

Ao final do Reinado, assistia a missas e exames de estudantes enquanto o país flertava com a guerra civil. A imprensa e muitos políticos o viam como rei indeciso, fraco, desinteressado dos problemas nacionais, chamado a torto e a direito de “Pedro Banana”. Pondo na balança o imperador idealizado e o efetivo, num prato vai seu amor por línguas e livros, os bons modos e a modéstia, no outro, vai a conta do reinado.

O próprio Nabuco, antes de virar monarquista, fez a soma: 49 anos de Segundo Reinado, 48 de escravidão. O Império não caiu por fazer a abolição, consumiu-se em evitá-la. Não expandiu cidadania, não modernizou o país. Em 1872, 85% dos brasileiros eram analfabetos. Não chegaram aos rincões nem escola, nem Justiça, nem saúde, nem transporte, nem a administração pública.

Era um Estado liberal, ao gosto do governo corrente, que garantia prerrogativas econômicas e bélicas dos proprietários de terra e negava políticas públicas aos demais brasileiros. Estimulava a livre iniciativa – exceto a do milhão e meio de escravos.

Parte do fascínio bolsonarista com a monarquia deve a esse seu lado, o do atraso. Outra deve à sua face violenta. O Império nada teve de pacífico, atravessado por assassinatos políticos e revoltas reprimidas à bala. Até pena de morte a lei previa, mas nem precisava, a iniciativa privada a exercia com capangas, antepassados dos milicianos.

O governo do barão de Cotegipe ilustra a brutalidade do Estado monárquico. Sua “política do cacete”, designação precisa do deputado José Mariano Carneiro da Cunha, consistiu em fraude eleitoral, interpretações capciosas da lei, censura e destruição de jornais, policiais atirando em manifestações públicas e caça à mão armada a adversários. O chefe de polícia do Rio mandava raspar a cabeça de escravos fugidos apreendidos e de quem os ajudasse.

Os cidadãos de bem colaboravam. Em 1888, os respeitáveis de Itapira invadiram a casa de delegado suspeito de abolicionismo. Quebraram sua porta e seus ossos a marretadas. Como entre os linchadores estavam vereadores e o juiz municipal, demais autoridades fizeram vista grossa.

O apreço dos novos governistas pelo velho regime é por esse liberalismo que resguardava a propriedade, em vez de direitos individuais, e liberava armas para “autodefesa”. Seu exercício recente está no assassinato de líder do PSOL no Acre, no ataque à exposição no Congresso, na agressão racista a professor da Unesp, em CPIs nas universidades, na perseguição a pesquisadores de temas indigestos – como a ditadura. Somam-se símbolo e número do partido do presidente e seu ministro da Economia, que secundou o 03 na defesa do AI-5.

Outro traço do Império admirado por bolsonaristas é a indissociação entre Igreja e Estado. Por isso nem adianta pedir que Deus acuda. Como a goiabeira de Damares fica no sertão de Riobaldo, se vier, Deus virá armado.

* Angela Alonso é professora de sociologia da USP e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

Publicado originalmente na Ilustríssima (Folha) via Portal Vermelho


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