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Em 19/06/2019

As expectativas que envolvem o depoimento de Moro no Senado

O ambiente político é hostil para quem já foi comparado a um super-herói brasileiro

O dia promete ser de embates com a presença do ministro da Justiça Sérgio Moro nesta quarta-feira 19 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Ele falará sobre as mensagens que trocou com procuradores da força-tarefa da Lava Jato. O escândalo inaugurado pelo portal The Intercept Brasil já completou sete capítulos até agora, cada um com elementos novos, mas sobre a mesma tese: Moro agiu com parcialidade como juiz da operação e colaborou com a parte acusadora no processo que levou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão.

A reunião no Senado está marcada para as 9 da manhã. A exposição de Moro terá duração de 30 minutos. Em seguida, senadores inscritos, intercalados por ordem de partido, terão direito a cinco minutos para perguntas. O ministro terá o mesmo tempo para resposta. Na sequência, parlamentares terão prazo de dois minutos para réplica e tréplica. A audiência ocorre por sugestão do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), líder do governo no Senado. A Casa também anunciou que quer ouvir o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, envolvido no caso.

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O ambiente político é hostil para quem já foi comparado a um super-herói e chegou a ser cotado a ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Um dia antes do depoimento, Moro se esforçou para manter as articulações. Na terça-feira 18, o ministro participou de almoço com deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária. Também apareceu no programa do Ratinho, na TV aberta.

Histórico de vazamentos

O portal The Intercept Brasil noticiou o vazamento pela primeira vez no domingo 9 de junho. Já na estreia da série de reportagens, o portal revelou que o então juiz teria sugerido ao procurador que trocasse a ordem de fases da Lava Jato. Além disso, também teria cobrado agilidade em novas operações, dado orientações estratégicas, antecipado decisões e aconselhado recursos ao Ministério Público. Trechos mostram inclusive que Dallagnol tinha dúvidas sobre as provas contra Lula, pouco antes de apresentá-las no processo.

Uma nova revelação ocorreu na quarta-feira 12. Uma conversa trata sobre uma articulação entre Moro, Dallagnol e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux. Dallagnol enviou a Moro mensagens que enviou para um grupo de procuradores da Lava Jato. Ele relata uma conversa com Fux, que teria dado apoio à Operação, depois de um atrito entre Moro e Teori Zavascki, ministro do STF já falecido. Moro celebrou: “Excelente. In Fux We Trust”.

A semana “sextou” com mais novidades no site de Greenwald. Desta vez, mensagens mostraram que Moro zombou da manifestação dos advogados de Lula, reclamando do que chamou de “showzinho da defesa”. O então juiz também teria orientado acusadores a elaborar uma nota à imprensa, que explorasse as “contradições” do réu durante depoimento.

Na véspera dos esclarecimentos na CCJ no Senado, o Intercept publicou um trecho em que Moro quis poupar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de investigações na Lava Jato. Segundo o conteúdo, Moro não queria “melindrar alguém cujo apoio é importante”.

A repercussão entre os envolvidos

Um dia após o primeiro vazamento, Dallagnol publicou um vídeo na internet para se defender das acusações. Afirmou que é “natural” que procuradores conversem com o juiz, mesmo sem a presença da outra parte. Além disso, disse não reconhecer a fidedignidade dos trechos divulgados e chamou de “teoria da conspiração” as especulações sobre uma possível atuação partidária na operação.

Na sexta-feira 14, Moro também rebateu as acusações em coletiva de imprensa, em que contestou a autenticidade do conteúdo vazado e chamou de “descuido” a troca de mensagens que teve com Dallagnol.

O presidente da República ficou silencioso diante do caso em boa parte da semana passada. Chegou a encerrar uma coletiva de imprensa após ser perguntado a respeito. Mas sua postura evidenciou seu apoio. Na terça-feira 11, condecorou Moro em evento da Marinha, com direito a medalha da Ordem do Mérito Naval. Na quarta 12, levou o ministro para assistir a um jogo do Flamengo em estádio de Brasília. As palavras de defesa vieram na quinta 13: “O que ele fez não tem preço. Ele mostrou a promiscuidade do poder no tocante à corrupção”.

Do outro lado do conflito, o Partido dos Trabalhadores (PT) chamou a operação de “farsa judicial”. Em nota, acusou Moro e Dallagnol de agirem de forma combinada e de forjarem acusações com o objetivo político de impedir a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2018. Diversas figuras da oposição se somaram ao protesto contra a imparcialidade no processo.

E se fosse tudo manipulado?

Diferentes entidades jurídicas comentaram o escândalo. O Conselho Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) recomendou o afastamento de Moro e dos procuradores envolvidos. A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) anunciou que aguarda apuração rigorosa do conteúdo noticiado. Em postura semelhante, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) cobrou apuração dos vazamentos e identificou como crime a obtenção ilícita de dados e informações e a interceptação ilegal de conversas pessoais.

A perplexidade com o caso se alastrou pela imprensa internacional. O The New York Times destacou que “o juiz mais badalado do País foi flagrado enquanto aconselhava promotores federais sobre a estratégia que deveriam usar”. O francês Le Monde abriu reportagem com a pergunta: “E se o maior escândalo de corrupção na história do País tivesse sido manipulado?”.

O inglês Financial Times pôs foco na preocupação de procuradores com a eleição de Lula: “As mensagens vazadas mostraram promotores planejando impedir Lula de participar de uma entrevista (…), com medo de a história aumentar as chances de o Partido dos Trabalhadores vencer as eleições em outubro”. Também repercutiram o caso a agência de notícias alemã Deutsche Welle (DW), o diário britânico The Guardian, a emissora árabe Al Jazeera e o espanhol El País.

Jornalista sob ataque

O escândalo pôs em risco o responsável pelo site. Glenn Greenwald deve explicar ao Conselho de Comunicação Social (CCS) sobre as ameaças que estaria recebendo após noticiar o vazamento das mensagens. O requerimento foi aprovado na última segunda-feira 17. Estarão presentes na audiência representantes de associações como a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI).

O marido de Greenwald, David Miranda, também relatou ser alvo de violência das milícias digitais, com ameaças de morte. O deputado federal já era injuriado desde que tomou a posse no cargo, mas a violência aumentou após o escândalo do Intercept.

Fonte: Carta Capital


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