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Em 17/06/2019

Pólo industrial abandonado é reflexo do retrocesso da Venezuela

Enquanto a economia desmoronava, a moderna cidade de aço e alumínio foi engolida pelo passado, transformada em um posto das minas de ouro

Puerto Ordaz já foi o polo industrial da Venezuela, um sonho modernista de amplos bulevares e muitas fábricas, e o portal para um cinturão de ricos campos de petróleo que financiaram a generosidade do governo durante décadas. Enquanto a economia desmoronava, porém, a moderna cidade de aço e alumínio foi engolida pelo passado, transformada em pouco mais que um posto avançado das minas de ouro a algumas horas de carro, nas bordas da Amazônia.

Lá, em poços encharcados e cheios de malária, controlados por bandos de criminosos, homens trabalham como fariam séculos atrás. As pelotas de metal amarelo que eles extraem com trabalho extenuante hoje movimentam a cidade. O ouro tornou-se tão comum que o escambo no estilo medieval começa a substituir a moeda em toda a cidade.

O ouro também paga cada vez mais as contas do governo nacional na longínqua Caracas. Com as receitas do petróleo a minguar e as sanções dos Estados Unidos nos calcanhares, o presidente Nicolás Maduro tem contado com a riqueza das minas para manter o governo flutuando durante um impasse de meses com o líder da oposição, Juan Guaidó.

Assim, o governo permitiu que a indústria ilegal e os grupos armados que a controlam florescessem, provocando uma epidemia de violência, doença e devastação ambiental, e atraindo grande parte da população que resta em Puerto Ordaz. “Mais da metade de nossos clientes quer pagar em ouro”, afirma uma agente imobiliária, que descreveu um recente percurso de carro arriscado pela cidade cada vez mais sem lei para fechar um negócio, seguindo os compradores que carregavam ouro no valor de um apartamento. “O cliente disse ‘Venha no nosso carro’, mas eu disse: ‘Não, nós vamos atrás de vocês’. Com a insegurança, não se sabe quem reconhece que você carrega ouro”, acrescentou a agente, que ainda tem dificuldades com as novas normas de fazer negócios e pediu para não ser identificada.

Até as universidades foram envolvidas na corrida do ouro. “Em novembro, uma das garotas que estudam aqui me disse: ‘Um diploma não é caro, porque custa só 2,5 gramas de ouro (por semestre)’”, contou Arturo Peraza, reitor da influente Universidade Católica Andrés Bello. “Foi a primeira vez que eu soube o valor de uma educação universitária em gramas de ouro. Eu não podia imaginar.”

Os shopping centers foram dominados por negociantes do metal, que se sentam à vontade nas fileiras de lojas que antes vendiam produtos eletrônicos ou roupas, esperando que os garimpeiros cheguem com migalhas amarelas para trocar por dinheiro. Homens com olhos cansados e armas mal escondidas postam-se perto das saídas principais. Eles são a face pública mais discreta de uma epidemia de violência alimentada nas minas, mas que se esparrama além delas.

A febre do ouro alimentou uma proliferação de bandos armados, atraiu um grupo guerrilheiro colombiano, o ELN, promoveu a corrupção nas forças de segurança nacionais e a insegurança em Puerto Ordaz. A doença também se propagou nas minas e seguiu o ouro e os mineiros à cidade, revivendo a malária em uma região onde ela estava extinta.

Os problemas no leste remoto do país geralmente são menos noticiados do que as crises na fronteira oeste com a Colômbia, a rota principal para milhões de migrantes que tentam escapar da miséria na Venezuela. Mas os moradores dizem que a ilegalidade que fermenta nos distantes acampamentos de garimpeiros é um risco subestimado. “Aqui no estado de Bolívar, temos condições de financiar o caos, porque temos ouro”, analisa Peraza. “Em Caracas, eles não sabem o que acontece aqui. Eles estão tão focados na questão do petróleo, porque foi o centro econômico do país durante cem anos. Mas o petróleo secou e ninguém percebeu que a realidade mudou.”

O ouro é muito mais fácil de transportar e menos complexo de se extrair, se você tiver uma mão de obra desesperada para fazer o trabalho sujo e perigoso manualmente. Os trabalhadores que escavam em busca de ouro – são todos homens, as mulheres só atuam como cozinheiras ou nos bordéis nas minas – incluem pessoas cujos empregos foram abolidos pela crise ou os salários se desgastaram com a hiperinflação em níveis que só davam para comprar alguns pães de forma ou um saco de arroz. Muitos nunca retornam dos poços brutais. As mortes não são registradas e seus corpos não são enterrados oficialmente. Entre os desaparecidos estão o fotógrafo Wilmer González, que fazia uma crônica das minas e também trabalhava nelas.

Com a queda das vendas de petróleo, Caracas tornou-se mais dependente do metal extraído na região

Na região, muitos que não estão diretamente no garimpo de ouro dependem da economia do metal para sobreviver. Todos os dias um fluxo constante de automóveis segue para as minas carregados de latões de diesel, muitos dirigidos por trabalhadores de colarinho-branco. “Não tenho opção se quisermos comer. Eu não recebo há meses”, conta Lucia, professora de escola primária que duas vezes por semana faz a viagem de 18 horas, ida e volta, com seu marido e dois filhos pequenos, arriscando-se a pegar malária e a sofrer violência por um pequeno lucro que mantém o teto sobre suas cabeças e as refeições mais básicas na mesa. Ela pediu para não usarmos seu nome verdadeiro por medo de perder o trabalho.

Antes uma apoiadora de Hugo Chávez, ela perdeu a fé no governo, conforme a economia entrou em colapso ao redor de sua família próspera, destruindo o emprego de seu marido na administração de uma fábrica e transformando seu cargo de educadora em uma atividade voluntária. “Isso nos levou a fazer coisas que nunca poderíamos imaginar: vender queijo, trocar moedas. Então, quando não tínhamos outro meio de ganhar dinheiro, decidimos vender diesel às minas.”

Fonte: Carta Capital


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