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Em 19/02/2019

“Saída é mais poderosa que minha permanência”, diz Jean Wyllys

Em Berlim, ex-deputado critica o governo Bolsonaro e fala que pretende atrair os ‘olhos do mundo democrático’ para o Brasil

Desde que Jean Wyllys anunciou sua renúncia ao mandato na Câmara, seu paradeiro era uma incógnita. Em Berlim, ele fez sua primeira aparição pública na estreia do filme Marighella e, nesta segunda-feira 18, realizou uma coletiva de imprensa. No evento, o ex-deputado do PSOL comentou sua decisão de deixar o Brasil e falou sobre o atual cenário político do país.

Aos jornalistas, Wyllys disse que está vivendo em Berlim e que conta com a ajuda de amigos até encontrar um lugar para morar e um trabalho. Com planos de fazer doutorado, ele revelou já estar em contato com diversas instituições que têm interesse em acolhê-lo como pesquisador ou professor visitante.

O ex-deputado afirmou ainda que não pretende pedir asilo político na Alemanha, país onde planeja permanecer por um tempo. “Tive uma oferta de asilo político por parte do governo francês, mas o asilo político demora um tempo para sair, e há outras pessoas que precisam dele. Para mim, permanecer aqui com visto de estudante e pesquisador é muito melhor”, disse.

“O recado político já foi dado. Minha decisão foi um ato de preservação da minha vida e proteção da minha família, mas também um recado ao mundo e uma maneira de deixar de naturalizar o que estava sendo naturalizado no Brasil.”

Wyllys afirmou que, mesmo fora do país, pretende continuar atuando como ativista pelos direitos LGBT e em defesa da democracia. Ele descartou voltar ao Brasil enquanto o grupo político ligado ao presidente Jair Bolsonaro estiver no poder.

“Alertar o mundo democrático e fazer com que os olhos deste mundo se voltem ao Brasil é uma maneira de colocar o país sob vigilância e proteger as pessoas que estão ameaçadas. Nesse sentido, minha saída é muito mais útil e poderosa do que a minha permanência”, argumentou.

Sobre seus planos para o futuro, Wyllys relatou que pretende estudar o fenômeno das notícias falsas, focando como as fake news e discursos de ódio afetam processos eleitorais, o modo de vida de minorias e as democracias de maneira geral.

“As novas tecnologias permitiram a dissolução da fronteira entre a verdade e a mentira”, destacou. “Os fatos já não interessam. As pessoas não se interessam mais por fatos. Vemos mentiras produzidas em larga escala por uma massa de mídias e, ao mesmo tempo, uma ameaça violenta contra pessoas que se insurgem contra essas mentiras e querem colocar a verdade.”

Em entrevista à DW após a coletiva, Wyllys afirmou que as redes sociais – como importantes meios de comunicação e de expressão e sendo a principal plataforma de propagação de notícias falsas – precisam pensar em como conter as fake news e em como usar esse espaço para instruir a população sobre o que é verdade e o que é mentira.

“Os governos democráticos devem pensar juntos em formas e legislações, porém sem produzir censura, para controlar essas plataformas e evitar que elas afetem os processos eleitorais e sejam utilizadas para destruir a democracia”, opinou.

Governo Bolsonaro

Na coletiva, o ex-deputado fez duras críticas ao governo Bolsonaro e, principalmente, às propostas anticrime apresentadas pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro. “Por trás desse pacote de segurança pública está na verdade uma tentativa de legalizar a repressão contra a oposição política que vai haver ao governo Bolsonaro e às medidas ultraliberais”, disse.

Wyllys ainda chamou de lamentável a suposta reação de Bolsonaro ao anúncio de que ele estava deixando o país – em 24 de janeiro, logo após a decisão se tornar pública, o presidente escreveu “Grande dia” no Twitter, embora negue que estivesse se referindo ao deputado do Psol. Para Wyllys, a atitude só reforçou a impressão de que o país realmente não era mais seguro para ele.

“Um presidente deve cuidar de toda a população de seu país. Depois de eleito, ele é responsável pela população. Mas esse sujeito ainda não age como presidente da República. Ele continua agindo como se ainda estivesse em campanha. Tratando as 40 milhões de pessoas que não lhe deram votos, que votaram em outros candidatos, como inimigos”, afirmou.

O ex-deputado classificou o atual governo de uma ditadura. A DW questionou o porquê dessa definição, uma vez que Bolsonaro foi eleito nas urnas. Wyllys argumentou que o Brasil enfrenta um estado de pós-democracia, que seria caracterizado, segundo ele, pela permanência de instituições democráticas vazias e pela hegemonia do mercado unido a um Estado repressivo.

“Neste novo estágio, temos um Estado mínimo em respeito a políticas sociais, um mercado livre com todos os seus males, e um Estado máximo em respeito à repressão e penalização. Essa é a nova face deste governo brasileiro, que foi de fato eleito, mas podemos questionar essa eleição, que não foi baseada num debate público, mas somente em fake news“, disse.

A esquerda brasileira

Na coletiva, Wyllys fez ainda críticas à esquerda brasileira, que, segundo ele, não enfrentou questões sociais importantes como a igualdade de gênero, o machismo, o racismo, o antissemitismo e a homofobia. Ele destacou, no entanto, que a esquerda não deve ser culpada pela eleição de Bolsonaro.

“As esquerdas trabalham com a ideia de diversidade e acham que minorias étnicas e religiosas não podem ser consideradas responsáveis por crises econômicas, que problemas complexos, como a segurança pública, não podem estar na conta de pretos pobres que moram em favelas. As esquerdas não podem fugir desses debates, se eles incomodam a classe média. E, se a classe média vota num fascista, o problema não é da esquerda.”

Fonte: Carta Capital


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