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Em 21/12/2018

“Com ou sem Bolsonaro, a guerra do PCC ao sistema continua”

Gabriel Feltran acompanha de perto o PCC há quase vinte anos. Professor da UFSCar e diretor do Centro de Estudos da Metrópole da USP, o sociólogo lançou recentemente o livro ‘Irmãos: Uma História do PCC’(Companhia das Letras), resultado de uma extensa pesquisa de campo no Brasil e em outros países.

Diferente de outros tantos livros já lançados sobre o PCC, Feltran se dedica a explicar a ideologia e os códigos de conduta que garantem a coesão e capilaridade ao comando. E por que, apesar da repressão e dos líderes encarcerados, o poder da facção só cresce.

É impossível falar de crime e violência no Brasil sem entender a organização que começou nos anos 90 dentro dos presídios e hoje está presente nos mais diversos mercados ilegais, coexistindo com outros poderes.

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“A mesma área que é considerada pelos integrantes do crime como sendo do PCC, como uma cadeia ou uma favela, pode também ser ocupada por pastores e padres, professores, agentes de saúde ou comerciantes, e até policiais. (…) Como na internet, diferentes pontos de conexão podem ser utilizados na mesma área, sem que um prejudique o sinal do outro.” 

O PCC atua dividido em núcleos independentes, as chamadas sintonias. Há por exemplo e a sintonia dos Gravatas (os advogados da facção), a Sintonia do Progresso, encarregada de recolher as contribuições dos ‘irmãos’, e outras que cuidam de armas e dos “recursos humanos” (Paiol e Cadastro) — o número de ‘batizados’ chega a 30 mil, estima o Ministério Público.

Os membros dessas sintonias não necessariamente sabem, por exemplo, como operam outras unidades como a Restrita, a inteligência da facção e a sintonia Final, que concentra lideranças como Marcola. 

Em entrevista a CartaCapital, o sociólogo explica as singularidades do PCC, analisa os riscos da política defendida por Bolsonaro, Witzel e Doria e sugere caminhos para acabar com a violência e minar o poder da facção.

Confira a seguir.

CC: No livro, você diz que o muitos pesquisadores erram ao abordar o PCC como empresa ou comando militar… 

GF: O PCC é uma fraternidade que une muita gente do crime e muitos empresários envolvidos com o crime. Isso significa que, mais do que um caixa único e um chefe em estrutura piramidal — como normalmente são as empresas e os comandos militares — o PCC se organiza como uma sociedade secreta. Cada ‘sintonia’ é administrada de modo independente ou não sabe o que a outra sintonia está fazendo.

Isso permite muita autonomia nas pontas e muita capilaridade. O PCC pode estar ao mesmo tempo fazendo negócios na fronteira, administrando o pavilhão de uma cadeia e transportando drogas que serão vendidas nas ruas de São Paulo. 

A fraternidade dá coesão e um apoio mútuo a essas atividades econômicas tão diferentes.

CC: Porque a atuação do PCC difere de outras organizações criminosas?

GF: Uso no livro a metáfora da maçonaria. Você pode ter um maçom dono de restaurante, outro que é dono de uma fábrica de cigarros, de uma rede de lojas de sapatos. Dentro da maçonaria, todos eles são irmãos e trabalham em pé de igualdade. Ainda que, dentro dos seus respectivos negócios, eles tenham seus próprios funcionários, equipes e estrutura empresarial.

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Um empresário pode ser maçom, mas a maçonaria não é uma empresa. Não é porque um irmão é do PCC tem certos negócios, que esse modelo é replicado por todo o PCC. Não conheço nenhum outro grupo criminal que atue dessa maneira.

CC: Doria quer transformar a ‘guerra ao PCC’ em vitrine da gestão, nomeou um envolvido no Carandiru para comandar presídios. Isso aumenta as chances de uma reação violenta?

GF: Essa política pode fazer escorrer muito sangue, mas não vai resolver o problema. A política de segurança baseada no encarceramento e no aumento da repressão ostensiva produziu o PCC. É a mesma que, nos anos 90, deu todas as condições para que o PCC pudesse crescer. Aumentar a repressão sem inteligência produz mais crime.

Prender uma pessoa é muito ruim para o indivíduo em si, mas bom para a facção.

Quanto mais gente entra nas cadeias, cujo dia a dia é organizados pelas facções, haverá mais gente para atuar como soldado dessas facções.

Essas medidas anunciadas agora tentam devolver à opinião pública promessas vendidas durante a campanha. De que haverá mão pesada contra o crime organizado, e etc. Mas não é a primeira vez que isso vai acontecer, e os grupos criminais estão estruturados há muito tempo pra usar essa política a seu favor.

CC: No livro, você narra a disputa entre grupo mais violento e outro ‘moderado’ – representado pelo Marcola – pela hegemonia no PCC. Essas mudanças políticas abrem espaço para que um outro modelo vigore?

Essa guerra interna aconteceu na virada dos anos 2000 entre grupos mais afeitos a ações do tipo terrorista, inspirados em Pablo Escobar, e outros que deram ao PCC essa ‘cara’ de organização que atua de forma secreta sempre que possível. Não vejo motivo para que seja diferente.

Com Bolsonaro ou sem, esses ladrões estão vivendo em guerra contra o sistema. A guerra entre polícia e crime não muda de natureza, mas pode mudar de intensidade, pode se tornar mais violenta para todo mundo. Na visão de quem está no crime, a guerra não é contra um governo específico.



Fonte: Carta Capital


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