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Em 31/10/2018

Economista prevê confusão, estelionato eleitoral e racha

Para o economista Guilherme Mello, as primeiras declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seu futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, indicam que o início de governo será de “muita confusão”. Ele prevê ainda uma boa dose de “estelionato eleitoral”. De acordo com o professor da Unicamp, as 48 horas pós-eleição repetiram o que se viu na campanha: “palavras abstratas e pouca informação sobre o que será feito”. Na sua avaliação, é provável que a gestão finde por descontentar aliados.

Marcos Oliveira/Agência Senado
  
Logo após divulgado o resultado do pleito, no domingo (29), Paulo Guedes deu uma atribulada entrevista, na qual chegou a ser grosseiro com uma jornalista do El País. Na coletiva, anunciou como prioridades a reforma da Previdência, as privatizações e o controles de gastos. 

Segundo Guilherme Mello, contudo, há muita falta de clareza e coordenação entre a equipe de Bolsonaro. “Eu vejo é muita confusão. Primeiro falou-se que A reforma da Previdência seria em 2020, aí depois outra pessoa disse que iam aprovar a reforma do governo Temer. Aí Bolsonaro disse que não vai ser a de Temer. Então está muito pouco claro o caminho que eles vão seguir, se vai ser esse ano ou não, se vai ser a reforma do governo Temer. E, se for, qual parte vão manter?”, diz.

Enquanto Guedes fala que a Reforma da Previdência deve ser feita ainda em 2018, o indicado para chefiar a Casa Civil do futuro governo, o atual deputado Onyx Lorenzoni defende que as mudanças sejam discutidas sem pressa. 

Nesta terça (30), Guedes chegou a desautorizar o parlamentar: “Houve gente do próprio futuro governo falando que não tem pressa de fazer reforma da Previdência. Ele, jornalista que fez a pergunta, está dizendo que o Onyx, que é coordenador político, (...) falou que não tem pressa na Previdência. Aí o mercado cai. Estão assustados por quê? É um político falando de economia. É a mesma coisa do que eu sair falando de política. Não dá certo, né?”.

A ausência de detalhamento sobre o plano de governo não se resume às regras de aposentadoria. Mello aponta que, apesar de muito se falar em privatizações, não está delineado o que exatamente será vendido. “Não se sabe o que e como vão privatizar. Tem muita empresa que é estatal só no nome. Isso aí tudo bem fundir, fechar. Mas aprovar uma privatização do Banco do Brasil, por exemplo, não é uma coisa simples, vai ter resistência. E, do ponto de vista fiscal, você alivia no curto prazo, mas piora no longo prazo, porque o Banco do Brasil para de pagar dividendos ao Estado.”, ressalta.

Para o economista, a própria Reforma da Previdência e o programa de privatizações podem vir a ser “estelionatos eleitorais”, assim como o ajuste fiscal prometido. 

“Acho que o governo tem tudo para começar, além de com uma certa confusão, com algum nível de estelionato eleitoral. Há coisas com as quais eles se comprometeram na campanha e podem não cumprir. Bolsonaro fala em cortar privilégios, mas boa parte dos privilégios beneficiam setores com os quais ele assumiu o compromisso de não mexer, como é o caso dos militares. Quarenta por cento do déficit da Previdência do setor público vem da aposentadoria dos militares, que eles já sinalizaram que não vão mexer”, lembra Mello. 

Nesta terça, o general Augusto Heleno, nome já confirmado à frente do Ministério da Defesa de Bolsonaro, advogou que os militares merecem um tratamento especial e diferenciado na Previdência. "É preciso levar em conta as particularidades da profissão militar", alegou, numa sinalização de que as benesses devem seguir inalteradas.

Fratura com indústria e financismo

“Tem muita fala conflituosa entre eles”, constata Mello, que prevê algumas crises pela frente. “Você tem todas as condições dadas para que algumas fraturas comecem a aparecer. A primeira será com o setor industrial. Eventualmente, a depender do ritmo e de como eles fizerem as reformas, vai ter uma fratura com o setor financeiro também no médio prazo”, opina, apesar de o “mercado” ter aderido à campanha de Bolsonaro.

Ele projeta que a gestão do candidato do PSL pode deixar os industriais insatisfeitos à medida que decidir cortar subsídios e desonerações. E isso está ligado a outro estelionato eleitoral, Mello indica. “Eles dizem que vão zerar o déficit fiscal em um ano e que vão reduzir a carga tributária. Isso é estelionato certo. Zerar com a atual carga tributária já seria algo muito difícil”, afirma. 

Mas o fato é que, para fazer esse ajuste fiscal tão severo, um dos alvos da tesoura devem ser as despesas tributárias, quer dizer, os benefícios fiscais concedidos aos empresários. 

Guilherme Mello também aponta que o próprio processo de privatização, ao privilegiar empresas estrangeiras, deve desagradar a indústria nacional, que provavelmente perderá mercado para seus concorrentes estrangeiros.

Outro ponto de desgaste com o setor produtivo pode ser a redução do papel dos bancos públicos e suas consequências na oferta de crédito. Ele cita que, caso o Banco do Brasil venha a ser privatizado, por exemplo, as linhas destinadas à agricultura serão afetadas. Já se Caixa for entregue à iniciativa privada, o mesmo deverá ocorrer com o financiamento ao setor imobiliário. 

Além disso, o futuro governo já anunciou que deverá promover uma abertura maior da economia, o que preocupa a indústria verde e amarela. O medo é de perder competitividade e de que o país seja invadido por produtos importados, em detrimento da produção local.

Por outro lado, o economista estima que os problemas com o setor financeiro podem vir a partir do não cumprimento da pauta do mercado. A reforma da Previdência, por exemplo, pode não ser a desejada pelo financismo, cita. “Mais que isso. Em 2020, a EC 95 [do teto de gastos] vai estar num cenário de esmagamento total das despesas. Bolsonaro vai rever [a regra fiscal]? Não vai? Ele vai entrar num dilema, que não é fácil de resolver, e acho que tem aí um potencial de conflito com setor financeiro.”

Destruir os inimigos
 
Em meio a tantas dúvidas, Mello destaca uma certeza: a de que em 2018 se inicia um governo contra movimentos sociais e trabalhadores. “Pode se preparar porque se tem uma coisa em que ele é convicto é que tem que destruir seus inimigos. A ideia de organização trabalhista e social é colocada como um grande inimigo. Vai ter ofensiva pesada contra sindicato, contra trabalhadores”, prevê. 

O ataque a direitos do trabalhador deve seguir, em linha com o que fez o atual governo Michel Temer, analisa. “Até o Temer já fala que o governo de Bolsonaro será de continuidade ao seu”, ironiza Mello. 

Segundo ele, a escola econômica de Paulo Guedes defende que redução de salário gera investimentos. “Vai haver ataque contra o salário e contra direitos. O que, de maneira geral, é muito ruim para a economia. Pode haver até uma lenta retomada do emprego do crescimento, porque estamos hoje numa situação muito ruim, mas nada que sustente um novo ciclo de desenvolvimento”, crê. E pondera que isso deve ocorrer às custas de muita precarização. 

Sobre a declaração de Guedes de que não deverá priorizar as relações comerciais com o Mercosul, Guilherme Mello avalia que o Brasil tem muito a perder com essa decisão. “Isso vai custar caro para o Brasil. Quem consome nossos manufaturados são os mercados menores, ao latino-americanos, a Argentina. Conforme a gente for abrindo mais espaço na pauta de negociação internacional para países como Estados Unidos, o que eles querem da gente são commodities. Então é piorar ainda mais nossa pauta de exportação e degradar as condições de ter uma retomada mais sustentada da indústria”. 




Por Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho


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