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Em 25/10/2018

O 'papo reto' de Mano Brown ao PT

Reprodução
Mano Brown

O rapper sabe como poucos o que tem ocorrido nas periferias do País

"A cegueira que atinge lá, atinge aqui também", disse Mano Brown a petistas presentes ao comício de Fernando Haddad na noite da terça-feira 23 no Rio de Janeiro. Chegou a ser vaiado por uma parte da militância pelo "papo reto", ao dizer que não confia numa virada por haver "30 milhões de votos para tirar". "Sou realista." 

Nesta quarta-feira 24, Haddad tentou pôr panos quentes nas críticas ao afirmar que "Mano Brown tem toda razão". "Precisamos voltar pra periferia de coração aberto porque a periferia não votou com a gente no primeiro turno".

Apesar do leve mea-culpa, o discurso do candidato ainda é eleitoral. As críticas do rapper parecem justificar apenas a derrota na fase inicial da disputa: "Vamos voltar pra base e governar o Brasil com a base, como sempre fizemos", conclui o petista. 

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O diagnóstico do músico, uma referência para a periferia de São Paulo, não se resume à derrota do partido no primeiro turno – basta lembrar que Haddad também perdeu a prefeitura para João Doria nos bairros mais pobres de São Paulo em 2016. É a síntese de erros acumulados nos últimos anos, da corrupção à falta de trabalho de base, que abriram caminho para os mais pobres virarem as costas ao PT e flertarem com o autoritarismo. 

Ninguém sabe melhor o que está ocorrendo na periferia que Mano Brown. Neste ano, afirmou em apresentações que é preciso combater o "pensamento escravagista" e não jogar o "voto fora" no candidato do PSL.

Em outro show, falou de sentimentos que, antes escondidos, agora estão dispersados. "Todo esse monte de gente dizendo que vai votar no Bolsonaro é porque é recalcado já de uns dias e não se assume". Ao contrário do PT, o rapper já combatia o crescente bolsonarismo entre os mais pobres desde o início do ano, quando o partido ainda mergulhava no drama pessoal e político de Lula. 

A constatação de que algo estava errado na periferia não é recente. Antes das manifestações de junho de 2013, Mano Brown se apresentou na Virada Cultural para centenas de milhares de fãs, grande parte de bairros mais pobres de São Paulo. Após relatos de arrastões e agressões no dia anterior, ele criticou os episódios de violência. 

“Os malandrão roubaram o Mizuno do moleque que custa 900 paus. Ele vai voltar pra quebrada dele mais pobre. Quem ganha 900 por mês aí levanta a mão. Nosso povo tá dizendo que tá desempregado", argumentou, ao defender que, sim, havia oportunidades naquele momento. O País vivia uma situação de pleno emprego. 

“A gente tem que se capacitar, temos que aprender um pouquinho mais. Hoje em dia você pode procurar a sua informação e o que te interesse. As vezes temos que fazer o que não gostamos para sobreviver. O que eu vi ontem no centro tá longe de ser uma evolução. O rap precisa de gente de caráter, não de malandrão”. 

A crise econômica iniciada na gestão de Dilma Rousseff e consolidada no governo de Michel Temer tirou, porém, até as oportunidades "que não gostamos". O desemprego crescente incentivou um sentimento conservador que já crescia nas periferias.

Publicada em 2014, a pesquisa "Um País Chamado Favela", de Renato Meirelles e Celso Athayde, dava boas pistas do descolamento da esquerda das bases populares. Se 76% dos moradores de favelas diziam que a vida melhorara, 40% condicionavam a evolução socioeconômica a Deus, e 42% ao esforço pessoal. Políticas sociais eram pouco lembradas pelos entrevistados. 

Pode-se concluir, portanto, que a meritocracia e o discurso religioso já eram majoritários entre os mais pobres, algo reforçado pelo crescimento das Igrejas Evangélicas nas periferias. Não à toa, Bolsonaro, adepto da crítica ao "coitadismo" das políticas sociais, chega a ter 70% dos votos entre os evangélicos. Por outro lado, Haddad pode até vencer entre aqueles que ganham até um salário mínimo, mas Bolsonaro tem desempenho nada desprezível nesta faixa, algo próximo de 40% dos votos, segundo as pesquisas. 

Mano Brown defendeu as políticas do PT enquanto elas foram eficientes. Em 2013, pedia ao seu público para aproveitar a onda de pleno emprego e não descambar para violência. Ao ver o crescimento de Bolsonaro "na quebrada", passou a combatê-lo em seus shows. Agora, descrente sobre uma possível virada, aponta os erros de um partido que leva os trabalhadores no nome, mas cada vez menos nas costas. (Carta Capital)


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