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Em 15/08/2018

Belluzzo: Acionistas de valor

As práticas corporativas regidas pela financeirização atiçam a valorização do capital descolada da produção.

Por Luiz Gonzaga Belluzzo*

  
 Professor da Universidade de Cingapura, Jang-Sup Shin investigou o predomínio crescente, agora avassalador, do assim chamado “valor do acionista” na definição das estratégias empresariais nos Estados Unidos. A expressão “valor do acionista” sintetiza o conjunto de práticas de gestão empresarial que buscam maximizar a extração de valor de um ativo já existente em detrimento da criação de valor mediante o investimento em um novo ativo reprodutivo.

Shin observa que, ao longo das últimas três décadas, as mudanças regulatórias promovidas pela administração Clinton ensejaram a desabusada incidência de práticas predatórias de extração de valor na economia americana.

“As grandes corporações pagaram com regularidade aos acionistas a integralidade dos lucros acumulados. Frequentemente, desembolsaram ainda mais, sob a forma de recompra das próprias ações e distribuição de dividendos, enquanto reduzem o investimento e promovem reestruturações redutoras de custos.” 

É impressionante a evolução da saída líquida de grana das grandes empresas para remunerar os acionistas e recomprar as próprias ações. No período 1976/1985, as transferências de valor para os acionistas chegaram a 290 bilhões de dólares (0,4% do PIB dos Estados Unidos). Entre 1986 e 1995, alcançaram 1,54 trilhão, para avançar entre 1996/2005 para 4,46 trilhões (2,6% do PIB) no período 2006/2015.

Inverteu-se a relação entre os recursos destinados ao investimento e aqueles utilizados para propiciar a elevação “solidária” dos ganhos dos acionistas e a remuneração dos administradores (stock options). A associação de interesses entre gestores e acionistas estimulou a compra das ações das próprias empresas com o propósito de valorizá-las e favorecer a distribuição de dividendos.

A isso se juntam a febre das fusões e aquisições, o planejamento tributário nos paraísos fiscais, o afogadilho das demonstrações trimestrais de resultados e as aflições das tesourarias de empresas e bancos açoitadas com o guante da marcação a mercado. 

Nos anos 1960, tempos dos gerentes obcecados com o crescimento da empresa a longo prazo, a cada 12 dólares gastos com a compra de máquinas ou a construção de novas fábricas, apenas 1 dólar era gasto com os dividendos pagos aos acionistas. Nas décadas seguintes, a proporção começou a se inverter: mais dividendos, menos investimento nas fábricas e na contratação de trabalhadores.

As mudanças na composição da riqueza e as transformações nas estratégias das empresas explicam a fúria de fusões e aquisições no setor privado e a sanha das privatizações de bens públicos. O rentismo exercita seus propósitos ao se beneficiar de um ativo já existente, de preferência criado com dinheiro público e gerador de renda quase monopolista. A onda de privatizações obedece à lógica patrimonialista e rentista do moderno capital financeiro. 

Mas não são desprezíveis os riscos embutidos no comportamento dos mercados de riqueza fictícia. Depois do susto da crise de 2008, a turma recuperou o ânimo e inflou outra bolha nas bolsas e nos preços elevados (e rendimentos baixos) dos bônus privados e públicos.

As empresas e os bancos prosseguem no afã de financiar os mercados de ações. Tomam crédito barato para comprar de volta os papéis (buy back) e abrigá-los na tesouraria, com o propósito de turbinar os preços e agradar aos acionistas, proporcionando ganhos para os administradores remunerados com stock options.

As práticas corporativas de extração de valor respondem a um ambiente governado pela financeirização da riqueza e, ao mesmo tempo, atiçam com mais combustível a fornalha da valorização do capital “descolada” da produção de bens e serviços.

Descolada, mas não estranha. Desconfiava um pensador do século XIX que essas formas de valorização da riqueza são também, a um só tempo, formas ilusórias que ocultam as relações de produção subjacentes e formas necessárias, enquanto expressões dessas relações transformadas pelo processo fantasmagórico que assombra a irrealidade da acumulação de riqueza, sob a forma inexoravelmente monetária.

A irrealidade do dinheiro faz aparições no mundo abstrato da racionalidade e do equilíbrio, refúgio dos economistas, como o fantasma de Banquo assombrava Macbeth. 

“Quando o empresário tende, inevitavelmente, a se tornar um rentier, dominante sobre os que apenas possuem o próprio trabalho, o capital reproduz-se mais velozmente do que o aumento da produção e o passado devora o futuro” (Thomas Piketty, 2014). 

*Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor



 Fonte: Carta Capital via Portal Vermelho


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