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Em 02/08/2018

"Se conhecêssemos nossa história, Bolsonaro não seria candidato"

Divulgação
Vladimir Herzog

Justiça Brasileira foi considerada culpada por não apurar assassinato do jornalista Vladimir Herzog


Apoiador da ditadura militar no Brasil, o presidenciável Jair Bolsonaro foi mais uma vez incitado a falar sobre o período de exceção na segunda-feira 30, durante entrevista ao programa Roda Vida. Para o candidato, os arquivos da ditadura devem ficar no passado. 

Antes disso, na mesma entrevista, o deputado afirmou que a tese de que Vladimir Herzog se suicidou é factível, "mas ele não estava lá para saber". O jornalista foi morto nos porões do DOI-Codi em outubro de 1975, 24 horas depois de prestar depoimento às autoridades da repressão. 

As declarações de Bolsonaro aconteceram no mesmo dia em que o Ministério Público Federal reabriu o inquérito sobre o assassinato de Vlado. Além disso, no início de julho, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) condenou o Brasil pela falta de investigação e sanção dos responsáveis pela morte de Herzog

O tribunal questionou a aplicação da lei de anistia de 1979 para encobrir os responsáveis pela morte de Herzog e apontou o Estado brasileiro como responsável pela violação ao direito de conhecer a verdade e a integridade pessoal em detrimento dos familiares da vítima. Foi esta condenação que fez com que o Ministério Público  reabri-se as investigações.

Leia também: Marielle, Herzog, Edson Luís: quando o luto vai às ruas

Para o filho do jornalista e presidente do conselho do Instituto Vladimir Herzog, Ivo Herzog, a investigação, o julgamento e as sanções aos responsáveis pela tortura e assassinato do pai são importantes para que a verdadeira história seja reconhecidas como narrativa oficial, e para que não se cometa os mesmo erros do passado. "Tem muita gente que acha que temos que deixar o passado para trás. Isso não é possível. Só podemos virar a página da nossa história quando terminarmos de escrevê-la", afirma Ivo. 

Confira abaixo a entrevista de Ivo Herzog a CartaCapital.

CartaCapital: O senhor acredita que a reabertura do inquérito sobre o assassinato do seu pai na Justiça brasileira pode marcar um novo capítulo do caso do Vladimir Herzog e da história da ditadura militar? 

Ivo Herzog: O caso da morte do meu pai foi considerado pela Corte Interamericana como crime de lesa-humanidade. Agora a gente vai ver se o Brasil vai se posicionar como uma nação soberana, uma nação séria, honrando os tratados que são signatários, ou se não é um país sério, que despreza os acordos feitos com a comunidade internacional.

Eu parto do pressuposto de que o Brasil que  irá honrar esses contratos e obedecer à determinação da Corte. E acredito que o caso da morte do meu pai abre ainda mais as perspectivas para que todos os que sofreram na ditadura tenham suas histórias reescritas. 

CC: O principal embaraço para isso não acontecer é a Lei da Anistia? 

IH: A Lei da Anistia não é uma lei legítima, ela foi feita num momento de exceção da nossa história por um Congresso biônico, então ela não possui validação democrática. Ela foi criada por uma imposição do regime para ter um instrumento que os protegesse. É uma lei que precisa ser debatida pela sociedade e o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre ela revisto. Enquanto ela for mantida do jeito que está, impedindo que se faça justiça, a gente não consegue avançar.

Tem muita gente que acha que temos que deixar o passado para trás. Isso não é possível. Só podemos virar a página da nossa história quando terminarmos de escrevê-la. Existem centenas de páginas em branco.

A sociedade precisa compreender o que acontecia na época da ditadura – e tivemos um exemplo disso com os documentos estrangeiros que dão conta dos casos de corrupção dentro da linha de comando dos governos da ditadura. Ou seja, não eram só nos porões da ditadura que as coisas aconteciam, mas também nos palácios da ditadura, porque os processos começavam de cima.

CC: O candidato à presidência Jair Bolsonaro nega que Vladimir Herzog tenha sido morto pelos torturadores da ditadura. Como o senhor avalia esse tipo de discurso político? 

IH: Tenho certeza que se tivéssemos conhecimento pleno do que do que aconteceu na nossa história o candidato que está disputando a dianteira das eleições não existiria. Não faz sentido nenhum qualquer pessoa com mínimo de conhecimento e respeito pela humanidade apoiar alguém que defende os crimes cometidos no passado.

CC: E no final apenas Bolsonaro tem sido incitado a falar sobre a ditadura no debate eleitoral... 

IH: Eu acho que os candidatos são incitados a falar sobre temas que são polêmicas em si. Cada candidatura têm suas próprias polêmicas. O Bolsonaro sofre processo por incitação à violência por ter citado o (coronel Brilhante) Ustra no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, onde fez apologia a tortura. 

Além das questões da ditadura, quando o candidato é questionado sobre os programas que têm na área de saúde, educação, economia, ele foge da resposta, porque ele não tem. Ele é um factoide, uma aberração política. Como a nossa política está fragilizada, abre-se espaço para esse tipo de figura. Ele não tem nenhum conteúdo. Ficou mais de 20 anos no Congresso e tem um indicie de desempenho baixíssimo. Se anexava a grupos que ele pudesse tirar alguma vantagem. A inconsistência dele só aparece agora que ele é efetivamente questionado.

O que sobra para a população são as manchetes de alguém que vêm com um discurso simplista, que diz se temos problemas na segurança, então vamos matar o bandido, se temos problema na corrupção, mata o corrupto, se a democracia não funciona bem, vamos reinstalar a ditadura. É muito complicado ter um cara como esse pleiteando o cargo maior de um pais como o Brasil.

Fonte: Carta Capital
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