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Em 31/07/2018

Disputa por liderança global obriga os EUA a se defenderem da China

Xinhua via Zuma Wire/Fotoarena
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Uma semana em Shenzen, o "Vale do Silício do hardware", dizem empresários, equivale a um mês na Califórnia

escalada protecionista ameaça o PIB global, segundo alertou, no domingo 22, o G-20, formado pelos ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais das 19 maiores economias mais a União Europeia, em comunicado divulgado no encerramento da reunião do grupo em Buenos Aires.

Concentrados no comércio internacional, os debatedores não trataram da disputa Estados Unidos versus China pela liderança global em inovação, apesar de ser este o motivo mais importante do embate atual entre as duas potências e o aspecto mais revelador das concepções de política econômica em jogo.

A inovação é essencial no plano “Made in China 2025”, divulgado no ano passado pelo presidente Xi Jinping, com investimentos de 300 bilhões de dólares para tornar o país autossuficiente em setores-chave, como os de produção de aviões, chips de computador, carros elétricos, robôs, equipamento ferroviário, navios e máquinas agrícolas. Os Estados Unidos temem perder a condição de vanguarda global do setor, sua última “vantagem comparativa” diante da potência oriental.

O plano chinês contará com a vantagem, inexistente no Ocidente asfixiado pela austeridade, de grandes financiamentos a juros baixos, fundos de investimento estatais e bancos de desenvolvimento, assistência financeira para a compra de concorrentes estrangeiros e extensos subsídios à pesquisa.

Nessas condições, são grandes as chances de concretização da promessa feita há dois anos pelo primeiro-ministro Li Keqiang de “acelerar a pesquisa e a comercialização de novos materiais, inteligência artificial, circuitos integrados, biofarmacêutica, comunicações móveis 5G e outras tecnologias e desenvolver clusters industriais nesses campos”.

Segundo a Fundação Nacional de Ciência dos EUA, a China é o país que mais gasta em pesquisa e desenvolvimento depois dos Estados Unidos, com 21% do total mundial de 2 trilhões de dólares em 2015. Essa despesa cresceu 18% anuais em média entre 2010 e 2015, mais de quatro vezes a velocidade dos americanos, e os chineses provavelmente assumirão a liderança nesse desembolso dentro de cinco a dez anos.

Outra medida de inovação e avanço tecnológico é o número de estudantes de ciência e tecnologia. Entre 2000 e 2014, os graduados em ciência e engenharia na China oscilaram entre 359 mil e 1,65 milhão por ano.

No mesmo período, os números ficaram entre 483 mil e 742 mil nos EUA. Em mais uma indicação importante, a China registrou mais de 1,2 milhão de patentes em 2016, segundo a World Intellectual Property Organisation, acima da soma de Estados Unidos, Japão, Coreia e União Europeia.

Segundo Ivan Tselichtchev, especialista em economia e negócios globais e professor da Universidade de Administração the Niigata, no Japão, é o próprio Ocidente que está criando a China como uma nova superpotência tecnológica.

“Por que ele faz isso? Obviamente, porque a China, com seu gigantesco acervo de trabalho barato e eficiente e o mercado mais dinâmico do mundo, proporciona oportunidades de negócios sem paralelo e, com isso, consegue condicionar o ingresso de empresas à transferência de tecnologia. Muitos projetos novos de investimentos estrangeiros diretos no país estão relacionados à modernização da produção e P&D.”

Exemplo desse poder de barganha é o acordo feito com a Siemens, que concordou em assinar um contrato de transferência de tecnologia em troca de participar do maior programa de trens de alta velocidade do mundo. 

A solidez da economia chinesa estimula os investimentos necessariamente de longo prazo em pesquisa e desenvolvimento. Na crise de 2008 e no seu desdobramento, diz Tselichtchev, a China provou ser mais forte nos aspectos estrutural e macroeconômico que a maior parte dos países ocidentais e isso significa melhores condições de atrair e de desenvolver tecnologia.

“Alavancando de várias maneiras sua nova força econômica e financeira, a China desenvolveu um poder de fazer as coisas na arena econômica global do jeito que ela quer que sejam. Para o Ocidente, é difícil encontrar um antídoto.”

Em 2009, 400 das 500 maiores empresas ocidentais mantinham 1,2 mil centros de pesquisa e desenvolvimento na China. Nos anos seguintes, enquanto o Ocidente se debatia para debelar os efeitos do colapso financeiro iniciado nos EUA, os chineses continuaram a investir em indústria e tecnologia. Segundo a China Europe International Business School, os centros de P&D estrangeiros totalizarão 1,8 mil neste ano.

“No início dos anos 2020, a rivalidade pela inovação industrial acelerará entre os EUA e a China. Ironicamente, a Casa Branca de Trump optou por uma política industrial de economia pobre, enquanto a China tem uma política de economia rica. O primeiro busca a glória do passado; o último não pode esperar para chegar ao futuro”, disparou Dan Steinbock, diretor de pesquisas do Instituto de Negócios Internacionais na Índia, China e América.

Steinbock critica a tentativa do governo Trump de revitalizar a indústria a partir do protecionismo por resultar em retaliação e não atacar a raiz do problema. O declínio da participação das economias avançadas nas exportações mundiais, diz, reflete o rápido aumento das atividades industriais nas grandes economias emergentes, em especial a China.

“Em contraste com Obama, Trump espera facilitar o crescimento dos EUA com uma reforma tributária supostamente pró-crescimento e renegociou ou rejeitou acordos comerciais para trazer empregos bem remunerados e apoiar a manufatura americana, a espinha dorsal de nossa economia. Sua esperança é desencadear o crescimento econômico e criar 25 milhões de novos empregos.”

A realidade, diz Steinbock, é outra, pois a dependência de novos instrumentos de política, como impostos mais baixos, desregulamentação agressiva e novas exportações de energia, pode impulsionar as fortunas econômicas dos EUA a curto prazo, mas contribuirá para uma deterioração mais ampla a longo prazo com agravamento da polarização de renda, custos sociais de uma desregulamentação equivocada e riscos ambientais associados à extração forçada de petróleo do xisto.

Nessas condições, prossegue o pesquisador, é altamente improvável que a performance de alto crescimento sustentado retorne e o mesmo vale para a criação de empregos em grande escala.

Paradoxalmente, acrescenta Steinbock, a administração Trump tenta alcançar progresso em áreas secundárias destinadas a gerar progresso mínimo ou transitório, enquanto ignora avanços viáveis ​​nas áreas de competitividade e inovação, onde poderia prosperar.

“Se isso for verdade, a China pode estar posicionada para colher não apenas os benefícios das suas reformas seculares aceleradas, mas também aqueles proporcionados pelos erros políticos dos EUA.” Em 2020, diz, os gastos chineses em pesquisa e desenvolvimento em relação ao PIB, que eram de 1,6% em 2010, se nivelarão aos 2,5% da maior parte das economias avançadas e se aproximarão dos 2,7% dos Estados Unidos.

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Segundo o cientista político Matt Sheehan, analista das tendências em inteligência artificial na China e nos Estados Unidos, “para empreendedores que procuram fazer protótipos, construir e ajustar um produto de hardware, não há lugar melhor do que a cidade chinesa de Shenzhen. Cheia de fábricas que passaram décadas produzindo todos os tipos de bens para exportação, a cidade desenvolveu seu próprio ecossistema de manufatura.

A extrema densidade de engenheiros industriais qualificados, os mercados eletrônicos estonteantes e os sistemas flexíveis de manufatura reduzem drasticamente os ciclos de produtos. Os empresários dizem que uma semana trabalhando em Shenzhen é equivalente a um mês nos Estados Unidos. Como resultado, a cidade, que hoje é chamada de ‘Vale do Silício do hardware’, tornou-se um ímã para empreendedores e engenheiros que fabricam produtos físicos”.

Trump não quer vetar o ingresso de empresas e de estudantes chineses, mas o isolamento dos EUA em relação a alguns ecossistemas tecnológicos da China, ao contrário de beneficiar o país, pode prejudicá-lo, alerta Sheehan. “O Vale do Silício da Califórnia liderou o caminho em uma era de produtos puramente digitais: plataformas de mídia social e aplicativos de telefone que podem ser ‘fabricados’ em um dormitório de faculdade.

Mas esse quase monopólio do acesso à tecnologia de ponta provavelmente mudará com o surgimento de tecnologias da próxima geração que precisam ser construídas fisicamente: robótica inteligente, drones autônomos e outras aplicações reais da inteligência artificial. Não por acaso, a DJI, empresa que domina a indústria dos drones, está sediada em Shenzhen.”

Investidores chineses experientes e aceleradores, prossegue o analista, geralmente fornecem uma porta de entrada crucial para pequenas start-ups americanas acessarem a riqueza de recursos de Shenzhen (talento, ideias e instalações de fabricação), que pode ser facilmente fechada” na escalada protecionista.

Enquanto isso, no Brasil da desindustrialização precoce e da privatização e desnacionalização pós-2016, um punhado de batalhadores da proposta da implantação da indústria 4.0 como alternativa para recuperar parte do tempo desperdiçado esforça-se para ser ouvido. (Carta Capital)


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