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Em 04/07/2018

Xenofobia de Trump faz barulho e incomoda até os acomodados

U.S. Border Patrol
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A “normalização” esbarra em limites. A equipe de Trump enfrenta rejeição nas ruas

Alguma coisa se quebrou na penúltima semana de junho de 2018: a ilusão ainda compartilhada por boa parte da mídia e da opinião pública de estarmos vivendo tempos normais. A sanha contra os imigrantes dos dois lados do Atlântico conseguiu, por fim, fazer soar os sinais de alarme.

O drama da separação de crianças refugiadasde seus pais na fronteira dos EUA rompeu a barreira da indiferença. O repúdio apareceu tanto nas pesquisas de opinião quanto em atitudes individuais. Primeiro, a secretária de Segurança Nacional Kirstjen Nielsen, responsável mais direta pela aplicação da “tolerância zero” contra os imigrantes, foi escrachada ao jantar em um restaurante e, depois, a porta-voz Sarah Huckabee Sanders foi convidada educadamente a se retirar de outro pelo próprio dono.

Entre um e outro incidente, a primeira-dama Melania Trump partiu para um centro de detenção de crianças refugiadas no Texas vestindo uma jaqueta com as palavras “Eu não me importo de verdade, você se importa?” Era para ser o que os EUA chamam de dog-whistle politics (“política de apito para cachorro”, inaudível para humanos), mas o recado às bases xenófobas foi ruidoso demais para os demais não ouvirem.

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Se seu marido conhecesse história, poderia ter-se lembrado de Adolf Hitler, que, em agosto de 1941, após levar a única vaia de sua carreira de ditador por causa do programa Aktion T4 de execução de crianças deficientes, decidiu suspendê-lo, ao menos no papel.

Donald Trump fez um meio recuo ao ordenar suspender novas separações de famílias, horas depois de insistir nelas como exigência legal, mas dias depois pediu a deportação imediata de imigrantes “sem juízes ou processos judiciais”, o equivalente a abolir o direito de asilo reconhecido pela Organização das Nações Unidas e pelos próprios EUA.

Enquanto isso, Mark Steyn, comentarista da Fox News, queixava-se de que “no Arizona, a maioria das crianças da escola primária é hispânica, a fronteira mudou para o norte”, sem se dar conta de que “Arizona” é um nome espanhol, pertenceu ao México até ser conquistado pelos EUA na guerra de 1848 e era povoado por “hispânicos” séculos antes de o primeiro estadunidense lá colocar os pés.

Na Europa, o ministro do Interior italiano Matteo Salvini, mesmo desautorizado pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte, insiste em recensear e fichar os ciganos no país e expulsar aqueles de origem estrangeira, embora “infelizmente” não possa fazer o mesmo com os italianos, conforme se queixou em entrevista à tevê.

“Precisamos de uma limpeza em massa. Rua por rua, praça por praça, bairro por bairro”, disse em outra ocasião. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, fez aprovar no Dia Internacional dos Refugiados a criminalização e ajuda aos mesmos e recusou acordos porque “a Hungria é contra a mistura” com povos estrangeiros.

Como escreveu o historiador e ex-eurodeputado Rui Tavares no jornal português Público, “acabaram-se as crônicas a alertar para a possibilidade de um regresso do fascismo: ele está aí, inconfundível e indesmentível”. Passou o tempo de advertir, a hora é de resistência. Uma ansiedade racial artificialmente insuflada tomou o lugar do descontentamento com um capitalismo neoliberal, cuja lógica as principais forças políticas não se atrevem a desafiar.

Trump não devolverá aos trabalhadores e pequenos empresários brancos do interior dos EUA a prosperidade e os privilégios perdidos desde os anos 1960 e sua guerra comercial deve piorar objetivamente as condições de vida de muitos deles, mas expulsar latino-americanos e árabes lhes dá uma compensação simbólica ao alimentar a fantasia de que o país voltará a ter sua cara.

Ver nas bravatas de seu líder contra o mundo a ilusão de que os EUA são “grandes de novo”. Seus modelos europeus mostraram o caminho ao alimentar a rejeição aos estrangeiros como substituto da insatisfação com a tecnocracia europeia e seus programas de austeridade. Nem sequer importa que os movimentos migratórios reais tenham diminuído tanto na fronteira dos EUA quanto da UE: seu papel no imaginário pouco tem a ver com sua dimensão na realidade.

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A epopeia dos refugiados do Aquarius, rejeitados pela Itália e desembarcados na Espanha, revela a fragilidade da Europa

A esquerda tem parte da culpa. A falta de coragem ou de capacidade para um desafio radical ao pensamento único da era Thatcher e Reagan abriu o caminho ao falso radicalismo da ultradireita. Como escreveu Walter Benjamin, “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada” – ou nem sequer tentada.

A lentidão do centro social-liberal ou neoliberal para compreender o desafio e reagir de maneira apropriada é, porém, mais surpreendente, pois não lhe faltam recursos materiais. Após a atitude “ouçam de novo, pois se não concordam conosco é porque não entenderam”, dar com os burros n’água no Brexit e na eleição de Trump, os porta-vozes do antigo consenso se apegaram à ideia de manipulação das massas por Vladimir Putin e por fake news para não reconhecer os próprios erros. Muitos continuam a quebrar a cabeça para descobrir uma maneira de censurá-las, sem se perguntar por que tantos desdenham a mídia dominante.

Pior foi crer que a demagogia de Trump e de seus equivalentes europeus era teatro eleitoral e no poder governariam como de costume, ilusão semelhante à de grandes empresários e banqueiros ante a ascensão do nazismo nos anos 1930. São capitalistas, é claro, mas suas crenças e prioridades são diferentes o bastante das neoliberais para espalhar o caos por linhas de produção e estruturas financeiras moldadas por décadas de globalização. Só agora, a julgar pelo comportamento das bolsas, o mercado financeiro começa a se dar conta da encrenca.

Os governos ainda neoliberais ou social-liberais custaram a perceber que não lidavam com manobras políticas usuais. Ainda em abril, Emmanuel Macron e Angela Merkel pareciam pensar que persuadiriam Trump a não romper o acordo nuclear com o Irã e os tratados comerciais com a União Europeia, tanto quanto acreditavam em levar em banho-maria as tensões com a imigração e escalada xenófoba e autoritária em países da Europa Central.

Há quem ainda negue a realidade: no domingo 24, auge do escândalo com a separação de famílias nos EUA, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair dizia que Trump deveria tranquilizar a Europa afirmando seu apoio aos valores democráticos e à sobrevivência da União Europeia.

Outros, porém, despertam. Na segunda-feira, França, Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Dinamarca, Holanda, Estônia, Espanha e Portugal assinaram uma carta de intenções sobre a criação de uma força de intervenção militar conjunta. É um passo de bebê, mas interessante, pois não esperou adesão dos países centro-europeus céticos sobre avanços na integração da UE ou mesmo da Itália, que ajudou a conceber o projeto no governo de Paolo Gentiloni, mas ficou fora dele com Giuseppe Conte.

Outro sinal de eles compreenderem que não podem mais depender do compromisso de Washington com a Otan é o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ter advertido em reunião preparatória da próxima cúpula da Aliança Atlântica em Bruxelas que “nossa União (Europeia) tem de se preparar para o pior cenário”.

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Em março, ao encontrar o primeiro-ministro sueco Stefan Lofven, Trump ouviu dele que a Suécia não é da Otan, mas faz parceria com a aliança caso a caso e respondeu que os EUA deviam fazer o mesmo. Na terça-feira, o espanhol Javier Solana, ex-secretário-geral da organização, teve negada a autorização para entrar nos EUA – normalmente concedida sem visto a qualquer cidadão da União Europeia – por ter visitado o Irã quando liderava a Aliança Atlântica e sua participação nas negociações nucleares.

Trump prepara sobretaxas contra os automóveis europeus, ameaça “taxar como nunca” a Harley-Davidson se instalar linhas de montagem fora do país e sabota abertamente Merkel ao divulgar dados falsos sobre o país: alegou, pelo Twitter, que a criminalidade na Alemanha aumentou mais de 10% devido aos refugiados “e seus funcionários não querem relatar esses crimes”.

Na realidade, o crime está em baixa no país europeu. Ele aproveita-se da fraqueza de Merkel, ameaçada pela rebelião do partido conservador bávaro CSU, tradicional aliado agora alinhado à xenófoba AfD e à Hungria, Áustria e Itália para exigir um endurecimento da política contra a imigração.

Ela e a rigidez de seu governo são responsáveis por grande parte dos desentendimentos na Europa e pelo fortalecimento da ultradireita na Itália, mas, se cair neste momento crítico para a definição de respostas para a questão dos refugiados e o desafio de Trump, é difícil ver como a Europa poderá evitar a desagregação.

Por outro lado, a oposição dos EUA também deu um passo interessante. Nas primárias democratas da terça-feira 26, Alexandria Ocasio-Cortez derrotou o veterano democrata Joe Crowley, número 4 de seu partido na Câmara com 20 anos de casa, pela vaga de um distrito que abrange partes do Bronx e do Queens, em Nova York.

A jovem de origem porto-riquenha, até 2017 garçonete de um bar de tacos e tequilas com diploma em economia e relações internacionais, foi a organizadora local da campanha de Bernie Sanders e é filiada à organização Socialistas Democráticos da América. Crowley, democrata centrista na linha dos Clinton, favorável à desregulamentação bancária e ao livre-comércio, guinou à esquerda sem convencer as bases jovens, feministas, latinas e negras de seu distrito, que preferiram o artigo autêntico. É preciso torcer para esse despertar não ter chegado tarde demais.(Carta Capital)


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