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Em 28/06/2018

Pré-candidatos do PSOL querem levar às urnas a luta de Marielle

Montagem/Arquivo Pessoal
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Os pré-candidatos Áurea Carolina, Érica Malunguinho, Douglas Belchior e Talíria Petrone

Pouco mais de 100 dias após o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e a três meses das eleições, pré-candidatos ligados ao movimento negro – que concorrem para deputados estaduais e federais – começam a desenhar as diretrizes de suas campanhas eleitorais e a ideia de perpetuar o legado da vereadora.

Quinta parlamentar mais votada no Rio nas eleições de 2016 e referência para o movimento negro e feminista, Marielle Franco, do PSOL, foi executada a tiros na noite desta quarta 14 de março, junto com o motorista Anderson Gomes, quando saí do evento “Jovens Negras Movendo as Estruturas”.

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“Os corpos que são colocados à margem da sociedade já são políticos. Minha própria existência, como mulher trans e negra, me torna um ser político dentro do sistema de opressão. Agora, busco o ingresso no espaço sistematizado”, comenta Erica Malunguinho, fundadora do quilombo urbano Aparelha Luzia e pré-candidata a deputada estadual em São Paulo pelo PSOL.

Com os avós inseridos no movimento negro e a mãe afilhada da via campesina, organização de diversos movimentos sociais do mundo, Erica credita o legado de Marielle à trajetória da população negra como um todo. “Quilombos, Revolução Haitiana, Benedita da Silva e Movimento Negro Unificado são alguns exemplos de como nós estamos nos organizando politicamente desde sempre. E a Marielle é o resultado de tudo isso. O trabalho dela não foi um caso isolado e, infelizmente, a sua morte também não foi”. Erika aponta que a execução reafirma as tentativas de extermínio da militância.

Nos corredores do cursinho popular Rede da Maré, na comunidade carioca de mesmo nome, Talíria Petrone dava início à sua trajetória na educação. Nesta época, a professora conheceu Mariele, de quem ficou amiga. “Nós trocávamos muito sobre a estrutura da política institucional e de como se daria o nosso ingresso nela”, diz a vereadora mais votada de Niterói, também no Rio de Janeiro, que sofreu ameaças de morte por telefone e redes sociais.

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Sobre o título de “sucessora” da amiga, Talíria reconhece a importância de Marielle em sua trajetória, mas faz ressalvas em relação ao termo. “Embora a Mari esteja viva em suas lutas, ela foi executada. Uma companheira executada não é substituída. Mas ao mesmo tempo muitas sementes estão se levantando para seguir as mesmas lutas que ela encampava. Essa é a forma dela seguir viva entre nós”, avalia.

De acordo com um levantamento da União de Negros pela Igualdade (Unegro) sobre a sub-representação de pessoas negras no Parlamento Brasileiro, realizado em 2012, do total de 513 deputados federais, apenas 43 se autodeclararam como negros. Em resposta a CartaCapital, a Câmara dos Deputados declarou que não divulga o número atualizado de parlamentares negros, pois não coleta dados como identidade racial e religião dos deputados.

Em Belo Horizonte, as semelhanças físicas e de luta fizeram com que a cientista política Áurea Carolina (PSOL-MG), vereadora da capital mineira e pré-candidata a deputada federal, fosse comparada com Marielle até mesmo pelos seus familiares. “Uma parente distante me disse que depois de ficar sabendo da história da Marielle entendia o que eu fazia. Ou seja, até meu trabalho como vereadora passou a ser mais evidente”, pondera.  

Segundo Áurea, a tragédia da morte de Marielle possibilitou que uma parcela da população estreitasse o contato com a política representativa. “Custa muito construir uma Marielle, além de ser uma perda para uma trajetória coletiva. Por outro lado, houve um despertar, tanto de eleitores como de novos candidatos, para ir à luta e ocupar esse espaço político”.

O ativista social e fundador da UneAfro Douglas Belchior explica outra problemática sobre a escassez de representantes negros na política institucional. “Os partidos estão abrindo as portas para a candidatura negra e dando visibilidade para esses representantes, até porque a própria sociedade cobra isso. Do ponto de vista da representatividade, o problema pode até parecer resolvido, mas isso é uma armadilha” comenta o pré-candidato a deputado federal pelo PSOL. “Nós precisamos efetivar as representações das demandas históricas. Ou seja, ser negro não basta. Não adianta ter representatividade se as demandas não atendem aos interesses coletivos.”

Segundo Belchior, Marielle condensava a representatividade com a representação em sua trajetória política. “A execução reafirma a importância de enfrentar esse estado terrorista e genocida. A Marielle era uma amiga. A gente pensava política juntos. Nós sonhávamos os mesmos sonhos. Eu via na prática dela aquilo que eu queria para a minha prática”, afirma.

Quilombos na política

Uma tendência presente na maioria das campanhas dos pré-candidatos ativistas de movimentos sociais é a candidatura coletiva. O mecanismo ocorre por meio de um representante registrado na Justiça Eleitoral que receberá o apoio de outras pessoas, responsáveis pela mobilização de votos e a execução do mandato compartilhado, caso o nome seja eleito. O dispositivo, porém, ainda não é algo formalizado, ou seja, trata-se apenas de um acordo entre o parlamentar e o grupo.

Para Áurea, que participa de um mandato compartilhado atualmente, esse estilo de governança é uma forma de recuperar o sentido da política como uma construção coletiva. “A campanha coletiva funciona como uma aliança de cooperação. Votou em uma, votou em todas”, diz a vereadora que juntou seu gabinete com o da vereadora Cida Falabella, do PSOL. A parceria ideológica e espacial resultou em um projeto inovador apelidado de 'gabinetona'.

Para a campanha deste ano, a pré-candidata explica que o intuito é levar o modelo de mandato para os três níveis: municipal, estadual e federal. Por isso, o movimento MUITAS foi criado para unificar a campanha eleitoral de 12 pré-candidatos do partido, sendo que são cinco federais e sete estaduais, ligados às questões sociais. “Optamos por compartilhar o fundo de arrecadação de verba para as campanhas também”, comenta Áurea.

Talíria Petrone defende que a inserção de representações oprimidas na política institucional precisa das campanhas coletivas. “Para eleger uma bancada de mulheres negras, por exemplo, nós precisamos coletivizar a relação com o poder. Isso é uma forma de resgatar os que vieram antes de nós, como a organização dos quilombos. A coletividade e a escuta devem estar presentes nas campanhas eleitorais, rompendo com a estrutura da velha política”.(Carta Capital)


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