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Em 30/05/2018

Um mês após morte de Matheusa, irmã acusa instituições de omissão

Robinson Barbosa
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Matheusa (esquerda) com a irmã Gabe

Um mês atrás, a estudante de artes visuais Matheus Passareli saiu de uma reunião na agência de modelos em que trabalhava e pegou um Uber até uma festa de aniversário no Morro do Dezoito, na zona norte do Rio de Janeiro. Conhecida por todos como Matheusa, ou Theusinha, ela tinha sido chamada para fazer uma tatuagem na aniversariante, que pagaria 50 reais pelo trabalho. Nunca mais voltou.

Era um dinheiro que Matheusa não podia recusar. A estudante morava com a irmã na casa de amigos e se mantinha com os 500 reais da bolsa-auxílio que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a Uerj, oferece aos estudantes cotistas. Desde 2015, quando começou a graduação, trabalhava para museus e projetos de arte e moda.

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Uma semana após o desaparecimento, a polícia confirmou que ela havia sido assassinada na mesma madrugada do desaparecimento. A demora se deu pela dificuldade de encontrar o corpo que, conforme a polícia averiguou, foi queimado após o crime.

Para a irmã de Matheusa, Gabe Passareli, há outra pauta imediata para além da investigação. Prestes a se formar em terapia ocupacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela vem se articulando com estudantes e professores das instituições que Matheusa frequentava para cobrar mudanças nas políticas de permanência estudantil.

“A gente não pode se prender só ao tiro, mas às desassistências, à falta de cuidado, às omissões. Minha irmã vinha num processo de estresse muito grande por conta da graduação”, diz Gabe. Em uma cerimônia realizada na Uerj em homenagem a Matheusa, ela leu um trabalho que a irmã havia feito pela faculdade, no qual criticava as condições oferecidas aos estudantes de baixa renda. A professora responsável nessa ocasião lhe deu nota zero, alegando que a peça era um “desabafo” e que ela faltava em aulas demais.

Gabe diz que a irmã sofria de problemas psíquicos e que a desorganização da assistência estudantil só piorou essa condição. O dinheiro das bolsas não caía no dia certo, o que fazia com que ela tivesse de se desdobrar para pagar o aluguel. Ambas bolsistas, as irmãs se mudaram juntas para a capital vindas de Rio Bonito, no interior do estado. Nos últimos meses, chegaram a alugar quartos na casa de desconhecidos para se manterem na cidade.

“Não estou responsabilizando a instituição pela morte da minha irmã, mas pela desassistência. A violência não é só o tiro. Quais são as questões estruturais do estado do Rio que colocaram o corpo da minha irmã em uma situação de extrema vulnerabilidade?”, questiona. “Não basta só entrar, precisa existir permanência e continuidade no processo de formação. Como isso está sendo garantido na Uerj?”

Fora uma mensagem que recebeu via WhatsApp por uma assessora de comunicação da Universidade, ela afirma que a administração da Uerj nunca a procurou depois do assassinato. Estudantes do Instituto de Artes da Universidade organizaram uma missa ecumênica no campus para velar a amiga naquela semana. “O evento foi incrível, mas não encontrei ninguém da reitoria lá para falar comigo ou com a minha mãe.”

Já a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), também pública, na qual Matheusa estava matriculada havia dois meses, chegou a instituir luto oficial de três dias e optou por não repor a vaga aberta pela morte da estudante, como forma de protesto. A escola se manifestou mais de uma vez sobre a execução, por meio de notas que citavam explicitamente a LGBTfobia implicada no caso.

(Eis a razão: Matheusa se identicava como não-binária, ou seja, não se considerava homem nem mulher. O tema aparecia com frequência em seus trabalhos, assinados com o nome de batismo. Para falar da irmã, Gabe — também não-binária — alterna entre o masculino e o feminino.)

A irmã de Matheusa, no entanto, afirmou que também não foi procurada pela equipe da EAV. A escola dá espaço a projetos engajados e atualmente expõe a mostra Queermuseu, censurada no Rio Grande do Sul no ano passado. “Vão usar essa exposição como se nada estivesse acontecendo”, diz Gabe. Ela ainda cobra que as duas escolas ofereçam suporte judicial no caso e usem o seu papel institucional para pressionar as autoridades a levarem as investigações até o fim.

Procurada para se posicionar sobre as declarações, a escola disse que “reafirma sua indignação e revolta” com o crime, mas não negou a afirmação de Gabe. Citou as ações que tomou e afirmou que pretende “estender as discussões em torno da enorme violência sofrida por LGBTQI+ no Brasil, com especial atenção às dissidências sexuais, corpos transviados e travestis e transexuais, que ainda lutam por direitos básicos”, através de uma série de ações.

Contatada pela Carta Capital, a Uerj emitiu nota e se mostrou surpresa com as declarações de Gabe. “São declarações certamente equivocadas, já que a Uerj acompanhou de muito perto todo o caso. E publicamente. O papel institucional da Uerj, nesse caso, é colaborar com a segurança pública e não pressionar a polícia — que, como se sabe, continua a investigação.”

A universidade ainda afirmou que a reitoria e a comunicação institucional já estavam mobilizadas desde o dia 2 de maio em torno do desaparecimento, e alegou ter registros de contato com a família de Matheusa e a imprensa, “mediando a informação, durante todo o processo, até a cerimônia na capela ecumênica da Universidade”.

“No mesmo dia 2 foram recebidos, no próprio gabinete da reitoria, mais de dez estudantes e duas professoras da graduação a que Matheus/Matheusa era ligado. Gabe não participou da reunião. Entendemos o clima de comoção geral e a ansiedade da família no sentido de ver solução para o crime, mas alegar omissão da universidade é inaceitável”, encerrava a nota.

Por telefone, Gabe não gostou das respostas. “Minha irmã foi morta no dia 29. Como eles queriam que já no dia 2 eu estivesse na reitoria para falar com eles?”, disse. “As condições econômicas e sociais da minha irmã não são uma surpresa pra ninguém ali da Uerj. Qual assistência em relação à segurança pública eles estão oferecendo? Nunca ouvi falar.”

Investigação
Sem ter como falar com a delegada responsável pelo caso há mais de duas semanas, a família de Matheusa está às escuras sobre o rumo atual das investigações. Nesse intervalo, Gabe relata que ela e sua mãe bateram à porta da delegacia mais de uma vez e foram recebidas, mas que a oficial não estava lá. A irmã entrou em contato com um advogado que, por ora, deve se encarregar somente de fazer essa ponte entre família e polícia.

Também diz ter ouvido de autoridades oficiais que, se fosse outra pessoa com menos projeção que Matheusa — que era conhecida no circuito artístico carioca —, o assassinato seria tratado de outra forma, com menor repercussão, por se tratar de um “crime comum”. “Comum para quem, amor? Me desculpe, mas não vou naturalizar isso. Não vou permitir mais omissões.”

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A irmã acusa até os amigos de terem se omitido. A maioria das pessoas presentes na festa eram conhecidas das irmãs. Segundo relatos, quando Matheusa chegou à festa, soube que não faria mais tatuagem nenhuma. Não se sabe exatamente o que aconteceu depois disso, mas a estudante teria passado mal, sido encaminhada a um quarto na casa, e chamado ao menos quatro pessoas para ajudá-la. Teria sido aconselhada, então, a pedir um Uber.

Depois disso, a história fica desconexa. Há relatos, já divulgados na imprensa, de que Matheusa teria tido um “surto” psicótico e ficado nua antes de sumir na noite. “Esse papo do surto não cai para cima de mim”, diz Gabe, que trabalha com saúde mental. Ela enfatiza que o cuidado que a irmã não recebeu é uma das razões pelas quais não se pode tratar do crime somente pelo viés da LGBTfobia

Ela diz ter cortado o contato com as testemunhas que conhecia, pois não confia mais nelas. “É uma série de cuidados que não foram ofertados. Para muitas pessoas, ainda vai doer bastante.”

Legado
Para se preservar — tanto psiquicamente como contra possíveis ataques de facções —, Gabe parou de dar entrevistas à grande imprensa. Apesar disso, não repudia a cobertura feita sobre o caso até agora, e diz não ter medo, nem culpa em relação a como administrou o caso até agora.

Uma série de homenagens a Matheusa deve ser organizada nos próximos meses, somando às intervenções que já aconteceram. Amanhã haverá um ato artístico no Rio, co-organizado pela irmã e por amigos da estudante.

“De alguma forma, minha família está lidando mais ou menos bem com o fato de não ter um corpo”, diz Gabe. “Me falaram que o legado da minha irmã é a própria história dela. É sim. Mas não vão nos matar mais. Ela estava quinze passos a frente de todas nós.”

Fonte: Carta Capital


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