O 'fact-checking' mudará o discurso dos políticos na campanha eleitoral? - Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região
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Em 23/05/2018

O 'fact-checking' mudará o discurso dos políticos na campanha eleitoral?

Filipe Redondo/BAND
Marina e Aécio durante debate eleitoral

Marina Silva e Aécio Neves junto a seus assessores em intervalo de debate, nas eleições de 2014

Ser honesto e não mentir em campanha. Foi o que 87% dos entrevistados afirmaram que procuram nos candidatos às eleições deste ano, segundo pesquisa do Ibope encomendada pelo Confederação Nacional da Indústria (CNI). 

Se o levantamento reflete o desejo da população, o advento e fortalecimento do fact-checking no País - checagem da veracidade das informações transmitidas - traz à classe política ainda mais preocupação e uma certa mudanças de comportamento, ainda que isso não signifique a transformação deles em representantes públicos íntegros e honestos.

Assessores de políticos e de algumas da principais agências de comunicação do País ouvidos pela reportagem de CartaCapital garantem que nada mudou no mídia trainingdado especificamente aos políticos. Mídia training é um treinamento personalizado para pessoas que, com frequência, dialogam com a imprensa e necessitam falar em público

Segundo eles, o surgimento de agências e empresas jornalísticas focadas na checagem de dados e discursos apenas fizeram com que os políticos prestassem mais atenção no que já era ensinado nos treinamentos.

Os meios dedicados ao fact-checking, no entanto, discordam. “As equipes das campanhas sabem que iremos fazer um monitoramento muito de perto. Isso, em 2014, foi muito surpreendente para todas as campanhas. Hoje existe um preparo por parte dos políticos, aumentou o cuidado. Temos cada vez mais políticos citando fontes das informações do seu discurso”, conta Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa, que se dedica a checar o grau de veracidade das informações que circulam pelo País. 

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Tai Nalon, diretora executiva do Aos Fatos, ressalta que em momentos de forte exposição e audiência, como os debates televisivos, os candidatos são claramente orientados a tomar cuidado com as checagens. “O assessor de um dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, em 2016, chegou a comentar informalmente aos nossos jornalistas que tinha orientado o candidato a não citar números durante o debate porque era mais fácil de ser pego citando alguma informação equivocada.”

Ela conta que se os candidatos fossem apresentar números, eram orientados a dizer: ‘por volta de…’. Ou: ‘mais ou menos’ tal número, em vez de cravar com certeza o dado que poderia estar eventualmente incorreto. “A partir do momento que o político coloca alguma insegurança naquela informação que ele tem, ele admite que não está seguro daqueles dados e que se eventualmente errar ou citar algo equivocado é só um erro, não é uma mentira. Trata-se de uma redução de danos no caso de ele citar uma informação errada”, afirma Tai.

Cristina ressalta que alguns políticos estão mais propícios a cometer equívocos que outros. Candidatos que tem um discurso baseado em ideias, opiniões, conceitos amplos ou previsões não podem ser checados, assim como aqueles que falam mais em público.

Em âmbito internacional, Cristina aponta mudanças consideráveis na postura de alguns políticos, ainda que pontuais. "Em um dos discurso do presidente da Argentina, a assessoria do presidente Macri mandou para o Chequeado os dados que seriam citados e todas as fontes de informação", conta. Chequeado é um meio digital que iniciou a checagem sistemática dos discursos de políticos na Argentina.

"É uma espécie de vacina anti-checagem, mas também uma preocupação com a qualidade do discurso, o que é ótimo. É uma grande mudança", avalia Cristina.

Na visão dela, os políticos brasileiros tem um longo caminho para chegar a fazer algo parecido. É preciso ressaltar, entretanto, que a checagem sistemática no país vizinho existe há, pelo menos, quatro anos antes que no Brasil.

Ambas deixam claro que todos erram e exageram. A fundadora do Aos Fatos vai mais adiante em sua análise: "Todos os políticos falam coisas que eles sabem que estão erradas, porém eles falam mesmo assim, independentemente de haver checagem ou não".

Outra situação que evidencia a importância que o fact-checking está na mira dos políticos, segundo a diretora da Agência Lupa, foram as propostas que chegaram a ela no pleito municipal. "Em 2016 fomos procurados por dois partidos políticos que queriam nos contratar para fazer sistematicamente a checagem dos rivais. Eles queriam que a gente tivesse um lado. Obviamente, rechaçamos."

Ambas as empresas possuem o selo da International Fact-Checking Network, concedido pelo Instituto Poynter, dos Estados Unidos, e oferecido após processo de auditoria dos meios de comunicação comprometidos com a produção de checagens transparentes, isentas e plurais de países de todos os continentes.

Fonte: Carta Capital 


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