No setor público, “mais lesivo do que um corrupto é um mau gestor” - Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região
Home » Notícias » No setor público, “mais lesivo do que um corrupto é um mau gestor”
Em 22/05/2018

No setor público, “mais lesivo do que um corrupto é um mau gestor”

Funcionário de carreira do Tribunal Regional Eleitoral, Guilherme Mendes acumulou duas experiências complementares e enriquecedoras na prefeitura de São Paulo. No início do ano passado, trabalhou na Ouvidoria e teve a oportunidade de entender as demandas dos moradores da maior cidade do País. Em meados de 2017, foi nomeado para a chefia da Controladoria municipal e tomou contato com os mecanismos de acompanhamento da gestão pública.

Leia também: O STF contra a democracia

Mendes deixou a controladoria paulistana há poucas semanas convencido de que o maior problema administrativo do País não são os desvios de recursos, mas a falta de planejamento. “Mais lesivo do que um corrupto é um mau gestor”. 

CartaCapital: O Estado está apodrecido pela corrupção, como se dá a entender atualmente?

Guilherme Mendes: Há uma onda moralista em curso. O debate está concentrado na corrupção e em seu anunciado combate. Essa crença, construída, tem um lado muito negativo, o de desacreditar a política e quem se dedica à atividade pública.

É óbvia a necessidade de se combater os desvios e os órgãos de controle existem há muito tempo no Brasil. Não se pode negar que, seja na prefeitura ou em outras instâncias, subsiste uma máquina a serviço ou a desserviço de quem está no exercício do poder, de qualquer partido. Mas a esmagadora maioria do servidores é honesta e exerce com devoção as suas funções. O problema não é esse. 

CCE qual é?

GM: Mais lesivo do que um corrupto é um mau gestor. Ser honesto é pré-requisito, não diferencial. Tão grave quanto a corrupção é a falta de planejamento. Ela drena mais recursos que os desvios. É preciso racionalidade e estratégia para os recursos renderem. Necessariamente não é só combater o roubo, mas, sobretudo, elaborar programas e concatena-los de acordo com o dinheiro disponível.

Acreditar em um Messias, honesto, que, com mão-de-ferro, de cima para baixo, vai resolver todos os problemas, só abre espaço para o arbítrio. Sem a política e sua mediação, nada se resolve. 

CC: O grande número de cargos em comissão atrapalha?

GM: O excesso sim. Algumas funções precisam ser comissionadas, pois servem para estabelecer as diretrizes de um governo que passou pelo crivo de uma eleição. Mas o número de comissionados no Estado brasileiro é completamente desnecessário. Certos cargos de livre nomeação em funções mais burocráticas e executivas contribuem para a descontinuidade dos projetos. 

CC: A onda moralista tem feito bem ou mal para o Estado e para o País?

GM: Não dá para medir totalmente o efeito dessa onda neste momento. Sem dúvida, ela freia o ímpeto dos mais arrojados, no bom sentido. O espaço para a criatividade, para a ousadia, está tolhido, em nome do formalismo. Com o tempo, a tendência é haver um reequilíbrio. Hoje o punitivismo causa uma certa paralisia. 

CC: Como tornar a gestão pública mais eficiente e efetiva?

GM: Com menos burocracia, não no sentido da informalidade, mas da simplificação. Com uma aproximação do cidadão, pois ele, mais do que ninguém, conhece a realidade e sabe quais são os entraves.

Só o contato o mais próximo possível com a população permite encontrar as melhores soluções. E este contato tem dois efeitos: permite entender melhor as necessidades dos cidadãos e os aproxima da gestão pública. Com isso, os moradores se tornam os efetivos fiscais da ação do Estado.

Em uma cidade gigantesca como São Paulo, é muito difícil fiscalizar. São milhares de unidades escolares, hospitalares, além de uma gama de serviços como poda de árvores e limpeza. Fora isso, precisamos garantir políticas públicas no médio e longo prazo. Nenhum gestor em quatro ou oito ano fará uma administração transformadora. 

"Se a corrupção no Estado simplesmente desaparecesse, os nossos problemas não estariam resolvidos"

CC: E como se consegue?

GM: Com um pacto mínimo na sociedade. Precisamos ser intransigentes com certos programas. Determinadas diretrizes, decididas de maneira coletiva, não podem passar pela discricionariedade do governo de plantão. Vale para o saneamento básico, para a educação... É necessário estabelecer metas de médio e longo prazo. O prefeito, o governo da hora, pode dar ênfase em um ou outro ponto, mas tem de seguir a decisão coletiva.

O que se vê hoje é outra coisa. Às vezes, dentro de um mesmo mandato ocorrem mudanças radicais de direcionamento ou mesmo a interrupção de certas políticas. Vivemos uma descontinuidade permanente. Isso gera insegurança e, pior, ineficiência, perda de energia e de dinheiro. Mas não se fala disso, pois é mais fácil se apegar à ideia da corrupção. É mais fácil jogar gente no camburão do que planejar. Se a corrupção no Estado simplesmente desaparecesse, os nossos problemas não estariam resolvidos. O principal problema é a incompetência. 

Fonte: Carta Capital


Desenvolvido por Porttal Webdesign

Topo