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Em 04/01/2018

A sensação do tempo perdido

Os Carta chegaram a São Paulo da Itália em agosto de 1946, o casal Giannino e Clara, os filhos Luis e Mino. O pai atendia ao chamado de Chiquinho Matarazzo, filho do fundador Francisco, para orientar a reforma da Folha de S.Paulo, da qual o conde tinha maioria acionária. Giannino era um jovem jornalista de 41 anos que preferiu o Brasil à direção do principal jornal de Gênova, Il Secolo XIX.

A família vinha da Guerra, durante a qual Giannino fora sequestrado e encarcerado pelos janízaros de Mussolini, no melhor estilo instaurado no Brasil pelo Tribunal do Santo Ofício de Curitiba. Ao escolher a proposta de Matarazzo, Giannino viu no Brasil a terra prometida e segura, diante do que temia, um novo conflito mundial. De fato, se deu, mas foi a Guerra Fria.

Mal chegou a família, o projeto de Ma-tarazzo se desfez, ele não dispunha da maioria absoluta e um pequeno grupo empresarial, muito antes de Frias e Caldeira, entrou em cena e aviou a receita necessária para que outros se apossassem do jornal.

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O conde, em compensação, era sócio de outros empresários de origem italiana em uma nova e promissora editora, o Instituto Progresso Editorial, responsável pelo lançamento de muitos autores europeus e dos principais americanos dos anos 20 ainda não traduzidos.

O Brasil era o país do futuro, com todos os méritos que a natureza lhe assegurara, e São Paulo uma cidade bem-comportada de 1 milhão e meio de habitantes e 50 mil carros. O Cadillac do conde Matarazzo ostentava a chapa número 1. Quando os Carta chegaram, os postes da Avenida São João, a grande artéria central, exibiam cartazes gigantescos de Rita Hayworth, protagonista do filme Gilda, em exibição no Cine Marabá. Foi uma acolhida sedutora.

O nome de batismo de Mino é Demetrio, herdado do avô paterno. O menino achava-o pesado demais e passou a ser simplesmente Mino, e assim passou a assinar desenhos, aquarelas, quadros e pequenas telas a óleo, bem como contos relâmpagos, reunidos debaixo do título geral de Esquisitices. Ele queria ser pintor e escritor quando crescesse.

O irmão mais novo, Luis, aos 11 anos já era exímio na máquina de escrever, e como tal cuidou de batucar sobre papel condizente os textos do irmão. Ele queria ser jornalista.

Conto estes momentos da minha vida para explicar como os Carta chegaram confiantes, foram bem recebidos e logo se deram bem. No IPE, meu pai conheceu outro jornalista, Paulo Duarte, que acabou por levá-lo ao Estadão para realizar ali o trabalho que haveria de fazer na Folha. Meu irmão e eu fomos estudar no Colégio Dante Alighieri e a vida fluiu com naturalidade e sem percalços.

E aqui estou agora, a enfrentar a minha Olivetti sem ter atingido em momento algum a eficácia de Luis, a começar pelo fato de que meus dedos têm a inexorável tendência de se inserir entre as teclas com resultados lamentáveis. E assim convoco a memória neste meu ocaso pessoal, ao tentar expor os pensamentos que me tomam neste exato instante.

Fui jornalista por razões mercenárias, embora sempre tenha cultivado ideias opostas às dos patrões. Minha conversão ao jornalismo, digamos assim, consciente e responsável, meu tombo a caminho de Damasco, aconteceu no longo espaço de tempo invadido pela ditadura.

Foi então que percebi a serventia desta complexa profissão sempre que praticada com fidelidade canina à verdade factual e com indomável espírito crítico, na fiscalização desassombrada do poder onde quer que se manifeste.

Durante a ditadura, entendi o valor insubstituível do registro preciso dos fatos e Hannah Arendt tratou de me inspirar. Illo tempore, submetido a uma censura feroz, costumava repetir, para mim mesmo e para quem quisesse ouvir, uma frase da pensadora alemã: “Não há esperança de sobrevivência humana sem haver homens dispostos a dizer o que acontece, e que acontece porque é”.

Houve quem dissesse que eu inventara a segunda parte da passagem do ensaio “Entre o Passado e o Futuro”. Por que é? Que significa isso? Pois é. Hannah Arendt induziu-me também a pensar que o tempo não existe, que a eternidade, se quiserem a imortalidade está em cada átimo da nossa vida registrado para sempre, aparentemente efêmero e no entanto eterno.

Disse átimo, e esta também é medida humana. A vida de cada qual cabe dentro de uma moldura em que entramos por completo, inclusive aquilo que esquecemos. Einstein disse, de resto: “O tempo é a persistente ilusão”.

Neste átimo busco entre o fígado e a alma outro momento igual a este, de desencanto profundíssimo, causado pela situação do País. O golpe de 1964. O golpe dentro do golpe de 1968. A torpe figura que na redação do Jornal da Tarde girava os olhos à procura do pecado. Veja apreendida nas bancas, depois a censura.

O auge do terror de Estado em 69 e começo dos anos 70 e sua retomada nos primeiros anos 80. A derrota das Diretas Já. Sim, foram situações difíceis, não o suficiente, porém, para gerar este atual desencanto. Eu acreditava que ao terminar a ditadura, o País acharia o caminho certo.

O primeiro abalo a esse gênero incauto de fé veio com a chamada redemocratização, uma cilada do destino que sagrou presidente aquele que comandara a rejeição da emenda das Diretas. E me fez pensar na atualidade do príncipe de Salina, quando sugeria mudar alguma coisa para não mudar coisa alguma. Segundo abalo, a eleição de Collor, com o apoio da mídia nativa, a denominá-lo “caçador de marajás”.

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Terceiro, o governo de Fernando Henrique, senhor da “estabilidade”, do triunfo do neoliberalismo à brasileira, da reeleição comprada, da maior bandalheira da história (a privatização das comunicações), da míngua das burras do Estado e da falência do Brasil.

Voltei a visitar a esperança com a eleição de Lula, e CartaCapital o apoiou, sem restrições quase sempre, tanto mais em meio ao “mensalão” e da primeira campanha de Dilma Rousseff, embora ele tenha acreditado na famigerada conciliação e aderido, ao menos em parte, ao neoliberalismo, sem detrimento do nosso apoio na sua segunda eleição e nas duas de Dilma. Reconhecemos em Lula o único presidente capaz de dar passos importantes no plano social e de afirmar a independência do País no plano internacional.

Nunca como neste átimo eterno, e nos que virão a me dizer que sou, o País me pareceu tão distante daquele que conheci ao chegar 71 anos atrás. A casa-grande e a senzala então ainda estavam de pé e havia um Brasil risonho e outro muito triste, e resignado na sua tristeza, mas era razoável imaginar que a Idade Média tivesse os dias contados.

Hoje voltamos a tempos muito anteriores aos da minha chegada, sofremos um golpe desfechado pelos próprios Poderes da República com a indispensável contribuição da propaganda midiática e o apoio de setores da Polícia Federal. Há autênticas quadrilhas no poder, a serviço da casa-grande, a qual nunca viveu fase tão favorável, de prepotência, arrogância e irresponsabilidade.

Que esperar de 2018? Como acreditar que Lula não seja condenado na segunda instância e que os golpistas, até hoje tão bem-sucedidos na operação de desmonte do País, se disponham a entregar a Presidência a um candidato de oposição? Nestas condições, até o pleito presidencial está em xeque.

O que pode detê-los? À medida que a crise e o desequilíbrio social se aprofundam e o projeto de saque do País avança, os quadrilheiros serão derrotados por seus próprios desmandos. Neste contexto o desafio de Lula à injustiça e ao insano desgoverno ganha uma extraordinária grandeza, na sua determinação de ir até as últimas consequências. E com ele estamos, na certeza de que seu gesto dará frutos, a partir do fato de que cala fundo e mais calará.

Constato, bastante além da mera melancolia, que o Brasil de hoje regrediu brutalmente em relação àquele que conheci faz quase 72 anos, e a sensação dolorosa é a do tempo perdido. Temo que o País tenha assumido o rosto, melhor, a catadura que merece. O desafio exemplar de Lula, no entanto, e estranhamente, me anima em meio ao desencanto, quaisquer venham a ser seus resultados.

Fonte: Carta Capital


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