Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região - artigo_id:6735
Em 29/10/2015

O que a redação do Enem 2015 me ensinou

O que a redação do Enem 2015 me ensinou Ao abrir meu caderno de questões, ansioso que estava para saber qual seria o tema da redação, recebo a primeira bofetada:

“Nos 30 anos decorridos entre 1980 e 2010 foram assassinadas no país mais de 92 mil mulheres, 43,7 mil só na última década. O número de mortes nesse período passou de 1.353 para 4.465, que representa um aumento de 230%, mais que triplicando o quantitativo de mulheres vítimas de assassinato no país.”

A constatação de que não teria muita dificuldade para escrever sobre o tema proposto não diminuiria a dor que a próxima bofetada causaria:

“237 mil relatos de violência foram feitos ao Ligue 180, serviço telefônico da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Sete em cada dez mulheres que telefonaram para o Ligue 180 afirmaram ter sido agredidas pelos companheiros.”

Essas informações, que me alertavam para uma triste realidade, estavam escritas na contracapa do caderno de questões de todos os candidatos.

Mais de 7 milhões de candidatos leram essas informações, além de mim mesmo, e não apenas nós.
A discussão sobre o tema se tornou em polêmica e ultrapassou o universo acadêmico.

“Ponto para as mulheres, ponto para a humanidade, ponto para a luta contra a violência!”  – comemorei com meus botões.

A violência contra a mulher no Brasil tem persistido e precisa ser combatida, isso é fato e tem de ser o ponto de partida para qualquer discussão séria sobre o assunto.

A redação do Enem trouxe para os holofotes da mídia, para o centro do palco das discussões uma agenda que alguns preferem relativizar, ou abordar com a indigência intelectual que é característica de pessoas truculentas, cuja violência cauterizou o bom senso.

Pessoas para as quais a violência é algo natural, e a violência contra as mulheres é apenas mais um tipo de violência:

“Formulado pelo corrupto e tresloucado governo federal, o Enem virou uma aberração acadêmica, o pior de tudo é saber que o dinheiro dos nossos impostos é usado pela quadrilha que nos governa para produzir esse lixo cultural.”

A frase acima foi escrita em uma página de Facebook que se diz “de utilidade pública”.

(Nota desse que vos escreve: “utilidade pública” para essa – e outras –  páginas significa, entre uma foto ou outra de um buraco na rua ou um cãozinho perdido, inserir dezenas de críticas ao governo federal, cuja responsabilidade não é tapar buracos nas ruas e muito menos cuidar da gestão da Sociedade Protetora dos Animais local.)

Para o editor dessa página a questão da violência contra as mulheres se reduz à crítica ao governo federal cuja representante máxima, pasmem… é uma mulher!

Para ele e para seus “seguidores” a ideia da violência contra as mulheres não tem importância.
Importa mesmo é a oportunidade de fazer uma crítica ao governo (de uma mulher, repito) que eles desejam derrubar do poder.

E os impostos que eles pagam, claro!

Os impostos… talvez as mulheres, inclusive as agredidas, segundo a visão de mundo do autor da frase infeliz, não paguem impostos.

A questão da violência contra a mulher transcende questões políticas e ideológicas, transcende a questão da direita ou da esquerda.

Transcende qualquer opinião a favor ou contra o governo Dilma.

A questão da violência contra as mulheres vai muito além de alguém ter votado em um candidato acusado de ser espancador de mulheres, ou ter votado em uma mulher que durante a ditadura foi espancada por homens.

Não se trata disso!

Trata-se de algo muito maior, mais elevado e que se encontra em um nível o qual temos por obrigação alcançar, colocando de lado as diferenças ideológicas, sejam quais forem.
É violência, é desumanidade, é injusto, é indigno, é sórdido.

É inadmissível: ponto.

Nisso todos temos de concordar.

A escolha do tema da redação do Enem foi um marco, um degrau que subimos em direção a um nível mais elevado, um nível onde a sociedade em uníssono condena a violência em geral mas especialmente a violência contra as mulheres.

Tenho plena convicção de os 7 milhões de brasileiros que leram no caderno de questões do Enem os alarmantes dados sobre a violência contras as mulheres no Brasil saíram da sala do exame pessoas diferentes.

Ouso dizer que as bofetadas que receberam – na forma de informações – fará com que lutem para que nenhuma mulher em lugar algum do mundo receba uma bofetada, de maneira alguma.
 
Tenho plena convicção de os 7 milhões de brasileiros que fizeram o Enem entregaram suas redações na condição de brasileiros que não mais podem permitir que a violência seja admitida, sob que formato for, contra quem for.

Eu sou um desses brasileiros.

E mais do que um bom resultado no Enem, que é o que todos desejam, desejo que essa discussão nos eleve àquele nível o qual creio temos por obrigação alcançar, colocando de lado as diferenças ideológicas, sejam quais forem.

Ano que vem tem outro Enem.

“No Brasil, 7 milhões e 200 mil mulheres com mais de 15 anos já sofreram agressões, das quais 1 milhão e 300 mil nos 12 meses que antecederam a pesquisa. Quanto aos homens, 8% admitem já ter agredido fisicamente uma mulher, 48% dizem ter um amigo ou conhecido que fizeram o mesmo e 25% têm parentes que agridem as companheiras.”

Espero que esses números sejam outros, e que a violência contra a mulher não seja mais tema de jornais, e jamais precise ser novamente tema de redação.

*Diógenes Júnior é ativista social, militante do PCdoB e pesquisador independente. Estudante de Ciências Sociais, paulistano de nascimento, caiçara de coração e gaúcho por opção está radicado em Porto Alegre, RS, de onde escreve sobre Política, História, Cinema, Comportamento, Movimentos Sociais, Direitos Humanos​

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