Sindicato dos Bancários de Itabuna e Região - artigo_id:1523
Em 28/11/2011

Limpieza social

Limpieza social Ela está nua e não há o que a constranja na compleição de seus 37 anos. O sinal, uma mancha preta, abaixo do dorso, no limite entre as nádegas, é um ruído plástico insonoro; traço de musa insuspeita. De poetas tão erráticos, quanto de adultos sem fêmeas telúricas. Sob o jato grosso despejado da torneira móvel, contorce-se, abaixa-se; cobre os seios com um braço; com outro, o sexo. O sexo é uma corola de pelos ouriçados, desbastados nos lados. Ao ricto da boca, nos lábios, vergam-se o nariz, os olhos miúdos, as sobrancelhas sob a testa tonta, em rodopio. Ao cruzar os braços com as mãos nos ombros, abaixada, o dorso curvo, não grita; inda que a silhueta junto ao muro de pedras, seja, toda ela, de súplica. Mais que súplica, de fim à ruidosa repressão às gentes do povo, às donzelas de hímens resistentes.

Não é um corpo em convulsão; talvez em convulsão, mas não em um surto epiléptico. À guatemalteca Regina José Galindo, não há limites para expor as sutis e explícitas formas de dominação, a que ela e o povo de seu continente estão submetidos. No painel acima, vem a nu também o uso de jatos d’água na repressão às queixas nas ruas. Num vídeo nunca imaginado, a não ser pela própria. O título é o grafite ideológico da autora e personagem – Limpieza social.

Noutro, grávida de oito meses, está deitada numa cama; os pulsos, para trás, juntos; as pernas, uma em cada lado inferior da cama. Pulsos e tornozelos atados, com cordões umbilicais, nas extremidades do móvel. Nua, a prenhez exposta. A cabeça mexe-se, inclinada para um lado, dá mostras de querer voar. É uma bezerra adulta, na primeira prenhez; olhando para um lado de sua traseira, à espera de que a livrem ou lhe tirem da cria. Na guerra civil, o exército da Guatemala estuprou mulheres indígenas; estupros continuados. Em vez do aborto, elas engravidavam. – Título – Mientras, ellos siguen libres.

Com um vestido preto, de mangas compridas, está sentada numa cadeira de espaldar longe de suas costas. As pernas cruzadas deixam a coxa de cima exposta. O vestido é aberto num corte. Tem uma faca na mão, a outra estica o couro da coxa; sem pressa, com decisão, inscreve abrindo riscos de sangue – Perra. Em seu país, mulheres são encontradas, após a tortura, com a inscrição – puta.

No afogamento, já conhecido no continente, deixa-se vergar sob a pressão de um torturador de torso e braços grossos. Até o limite ele força a cabeça de Regina no tonel cheio d’água. Confesión.

Em Tumba, no mar da costa da República Dominicana, homens jogam sete sacos amarrados contendo areia; têm o peso de uma pessoa. Vítimas do tráfico de drogas, e mesmo de gente, assim são “enterradas.” A performance aí termina,  e remete ao fim dos desaparecidos políticos.

A exposição na Fundação Joaquim Nabuco – Política da Arte – Corpo Social – é seguida pelo debate sobre Violência de Estado, Memória e Arte na América Latina. O fotógrafo argentino, Marcelo Brodsky, lançou o seu Buena Memoria, ensaio de fotos que aborda o desaparecimento de 98 estudantes, do Colégio Nacional de Buenos Aires. Dos desaparecidos, consta seu irmão “Nando”, sequestrado a 14 de agosto de 79.

O rio da Prata é enfocado como “tumba inexistente”, posto que lá os mortos eram jogados. A estátua sobre as águas, de Pablo Miguez; tinha 14 anos quando foi tragado pelas águas. E o Parque de la Memoria, em Buenos Aires, com mais de 600 metros de comprimento, incrustados os nomes dos desaparecidos.

Marcelo Brodsky, no exílio, viveu sete anos em Barcelona, cinco em Buenos Aires e seis em Madri. Vive em Buenos Aires e é casado com uma brasileira de Goiás. Compareceu ao debate junto com o presidente da Fundaj, Fernando Freire; o coordenador de artes plásticas, Moacir dos Anjos; o vereador Marcelo Santacruz, do PT; e o escritor Marcelo Mario Melo.

Desenvolvido por Porttal Webdesign

Topo